O meu primeiro treino com frio (a sério)

 

Entre o treino que da o título a este post e a data da publicação, já passaram muitos mais dias com “frio (a sério)”. Mas o que me levou a inscrever-me no ginásio e começar a fazer treinos na passadeira foi outro problema que, por esta altura do ano, emparelhado com o frio, me podia impedir de treinar durante vários dias: as nuvens de poeira carregadas de partículas venenosas vindas da China.

É um fenómeno que sempre aconteceu na península coreana, conforme registado em actas desde 174 a.C. durante a Dinastia de Silla (cujos originais fiz questão de analisar exaustivamente antes de escrever este artigo, a bem do rigor). Até há algumas décadas, estas nuvens afectavam só quem tinha problemas respiratórios; agora, carregadinhas de substâncias tóxicas, irritam os olhos e dão cabo dos pulmões a todos os que saem à rua sem aquela máscara parva que me irrita ver nos asiáticos quando estão em sítios decentes (“estás no Cabo da Roca, não estás em Chongqing, ó chinês!”, pensa um gajo). Aqui a tal máscara tem mesmo que ser, menos para mim, que sou muito macho mas, pelo sim, pelo não, vou respirando discretamente para o cachecol e apresso-me na rua.

Estas poeiras vêm em vagas, por isso pode haver uma semana em que não se pode andar à vontade na rua e muito menos correr lá fora. Já o frio é um problema mais contornável, mas só ao fim-de-semana, entre o almoço e o lanche, quando é possível fazer um treino sem ter que amputar os dedinhos no fim. Mas nem isso é garantido, como se pode ver abaixo.

 

Neste dia, os quinze minutos a pé até ao ginásio foram comicamente penosos. A respiração era feita às prestações, o vento rajadas de alfinetes que atravessavam o corpo e as luvas não fizeram efeito.

 

Comparemos este tormento com a alegria que é correr no Inverno da West Coast portuguesa:

Temperaturas na ciclovia do Guincho entre Janeiro e Fevereiro de 2016.

 

Para quem gosta de mapas e climas, sugiro este fascinante mapa-mundo da classificação climática de Köppen, para constatarmos como há poucas regiões no mundo relativamente amenas durante as quatro estações: para além da própria região do Mediterrâneo, o clima mediterrânico está presente numa pequena parcela da costa leste americana, parte da costa do Chile e alguns quilómetros de costa na Austrália.

Já sabia o que me esperava aqui, apesar de, nessa altura, só ter tido o desprazer de correr no Verão, sempre no calor (e humidade) da noite. Por isso, antes de embarcar, fui à Decathlon comprar umas coisas; uma de cada vez, para poder falar muitas horas com a especialista em corrida que até nem é nada de se deitar fora e, acima de tudo, dá bons conselhos.

Ver a gama de opções para estas corridas siberianas e as descrições dos produtos dava-me alguma vontade de rir (e chorar): “Gosto de me sentir quente quando está tempo fresco”, ou “Este produto protege do frio com temperaturas inferiores a 10ºC”. Jovem de poucos recursos, optei pelo mais económico possível, mesmo quando as luvas me pareceram um pouco finas, ou o corta-vento pouco cortante. Aqui vai o que trouxe:

 

Casaco de Corrida Homem Run Wind Preto Kalenji: 9,99 €

Luvas de Corrida Táteis Preto Kalenji: 6,00 €

Balaclava Ski/Snowboard Polar Adulto Preto Wed’ze: 5,99 €

Calças Justas de Corrida Homem Run Warm Preto Kalenji: 10,00 €

Camisola Justa de Corrida Homem Kiprun Skincare Cinzento Kalenji: 15,00 €

 

Tirando a camisola térmica e a balaclava, nada do resto é adequado para este tempo. Mas, sabem que mais? Eu quando saio de casa todo agasalhado com os sacos de coisas para reciclar sofro muito, até tremo, mas quando saio equipado para correr o estado de espírito é outro. Sim, o frio entra-me pelas calças e arrefece-me as pernas, as luvas são só para enfeitar, o corta-vento parece que tem furos. Alguns minutos depois, começo a sentir o corpo aquecer. Meia hora depois, apesar da água da botija gelar no tubo e ver nas pestanas pedrinhas de gelo, apetece-me tirar as luvas e respirar fora da balaclava (tesinha porque a humidade do bafo congelou). O corpo humano é magnífico! (*)

(*) “E agora, para não seres parvo, vais apanhar uma pneumonia da próxima vez que fores correr à rua”, disse Deus. “Doenças apanha quem fica em casa”, ripostou o insolente e descrente runner. “Na quarta fodo-te, ó cabrão”. A ver vamos.

Depois de tantas divagações, em relação ao tema que dá título ao post já há pouco a dizer. Depois de alguma sorte com o tempo, com o termómetro acima dos zero, veio uma vaga mais fresca. Ainda não estava inscrito no ginásio e tinha que sair para um treino longo. Estavam -5ºC mas vento a 11 Km/h, o que dava sensação térmica de -10ºC. Corri primeiro contra o vento, que soprava de Norte, por um afluente rumo ao rio Han, que atravessa Seul. Lá chegado, vi o rio congelado nas bordas em pelo menos 200 metros para dentro. A ciclovia tinha uma camada de neve boa para os impactos da corrida, mas lá ao fundo já vinham limpa-neves que só servem para tornar o piso mais escorregadio e ainda levei com sal na tromba do veículo que vinha atrás.

 

“Onde é que está o aquecimento global, se eu estou cheia de frio?” , diria a politóloga Maria Vieira

 

No retorno, corri com o vento pelas costas, o que nem sempre foi agradável porque o corta-vento tem uma racha larga de rede de cima abaixo (para arejar, com certeza). Ao mesmo tempo, sentia a capacidade pulmonar diminuir, tanto pela dificuldade de respirar através da balaclava (a sensação é parecida com a de respirar debaixo de mantas) como dos pulmões contraídos pelo frio, o que obrigava a inspirar-expirar mais depressa, causando cansaço acrescido. À excepção da respiração, todo o corpo estava quente e tirei as luvas simbólicas. Quando acabei, estava cansado mas vivo, vivaço. Gostei muito e só me chateia demorar tanto tempo a vestir-me e ir tão pesado. Quando puder andar de calções e sem três a quatro camadas de roupa em cima, transformo-me num tigre acabado de fugir da jaula.

 

Para quem gosta de filmes, aqui fica o percurso.

 

No próximo Domingo corro a Meia Maratona de Inverno, toda ao longo do rio principal. Começa às 9:00 e já estou a olhar para o boletim meteorológico (na terça, começarei a preocupar-me com as cagadelas). Vai ser um evento muito bonito e doloroso. Prevêem -6ºC com algum vento, mas tudo pode mudar, provavelmente para pior. Sei que na idumentária vou ser goleado, mas a correr é que a gente se entende. No mesmo dia, corre-se a a “minha” Meia Maratona de Cascais, que vou falhar com pena. O próximo post será sobre a corrida e terá uma novidade bombástica.

Até breve!

 

Foto: whatgordonsaw (blogue)

4 Comments

  • Quando li o titulo do post pensei “olha-meste, a queixar-se dos 7 ou 8 graus de minima que apanha em Lisboa…”. Depois tratei de enfiar diligentemente a viola do saquinho e fui para o meu canto.

    • Baptista says:

      Eheh! Mas também te digo: nas nossas casas da treta (pela minha falo), um gajo acorda com frio, veste-se com frio e quando sai para o frio (relativo) vai cabisbaixo e encolhido. Aqui, quentinho de casa, o corpo leva uma “alimentação” que faz toda a diferença…
      Abraço!

      • M. says:

        Não querendo ser emplastra na conversa, mas… é isso! Claro que tu ganhas com essas temperaturas, mas eu morro de frio em Paris onde no inverno ronda os -4º, depois claro, o meu primeiro inverno aqui e levei com -7º e neve para abrir a pestana. A verdade é que, na minha rica Sintra mesmo com temperaturas positivas eu morro mais de frio do que aqui, aqui todas as casas têm aquecimento inclusive na casa de banho, coisa que era um sofrimento em Sintra, tomar banho no inverno e passar da casa de banho para o quarto era morrer de hipotermia (ok sou miúda, certamente um pouco exagerada).

        Percebi finalmente o porque dos chinocas e as máscaras, mas adorei a tua versão de macho sem máscara.

        Entretanto adoro o facto de teres comprado o equipamento às prestações e “aproveitares-te” da especialista 🙂

        Daqui a uns meses temos tigre à solta é isso?!

        • Baptista says:

          Olá Fabiana!

          Emplastra-te sempre 🙂

          Completamente de acordo. O frio de cá queima a pele mas pára aí, em Portugal come os ossos por dentro! Sintra então é o expoente máximo… ofereçam-me o Palácio da Pena que eu desfaço-me logo dele e compro um apartamentozinho onde possa ter a felicidade de poder andar por todas as divisões da casa de cuecas (com sogra) ou nu (sem sogra) nos dias mais frios do ano. Sempre odiei andar calçado e de casaco em casa, qual aldeão russo do séc. XIX! Constroem-se casas como se Portugal fosse a Tailândia…

          Quanto a corridas, é encontrar aquele equilíbrio térmico perfeito. O mais difícil é o choque inicial do quente-da-casa para o frio-da-rua, mas é muito menos doloroso que entre o desliga-a-água-que-já gastaste-muito e o porra-que-a-toalha-está-gelada… quando entramos no ritmo fica-se bem e até dá para suar um bocadinho.

          P.S. A especialista das modas desportivas não passará disso mesmo, porque já vivo com uma (anti)especialista!

          Beijinhos e boas corridas!

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