10.ª São Silvestre de Lisboa (Parte 2)

 

Antes que venha a 11.ª São Silvestre (e eu me esqueça se participei na última), vamos lá falar um bocadinho sobre a décima.

Como se sabe, ando nisto há pouco tempo e é natural que a progressão dos tempos no início seja rápida. Só para terem uma ideia, até 30 de Dezembro, tinha batido a marca mais rápida para cada distância em todas as corridas em que tinha participado à excepção da São Silvestre de Lisboa de 2016, a minha segunda prova, em que a marca do Grande Prémio de Natal tinha resistido por 6 segundos. Desde então, só tinha voltado a correr 10.000 metros, por duas vezes, em Julho: primeiro em Almada (retirando 45 segundos ao primeiro recorde) e depois na Corrida da CPLP, em Cascais (51 segundos mais rápidos que em Almada). No entanto, os 41:17 faziam-me uma certa comichão porque, pela primeira vez, o GPS tinha marcado 9.9 Km em vez dos habituais 10.1 a 10.2 Km.

Assim, voltava ao pesadelo da Av. da Liberdade com vontade de bater um recorde conseguido num percurso mal medido e com uma altimetria muito mais acessível precisamente na única prova em que não tinha conseguido melhorar a melhor marca anterior. Este desejo seria quase irracional em condições normais, mas há meio ano que não me punha à prova na distância e estava a correr com uma regularidade e método que me permitia ambicionar um pouco mais. Mesmo assim, mantive a discrição nas declarações à comunicação social, enquanto no laboratório fui imaginando de que forma podia bater tirar pelo menos um segundo aos 41:17. Acabei por criar a seguinte cábula que levei no bolso dos calções:

 

10 Km em 41:16 dá 4:07/Km, mas como já se sabe que no fim o GPS marca 10.1 Km, dei uma folga de 2 segundos, para 4:05/Km.

 

Calculei em que tempo queria fazer cada quilómetro e depois determinei o que mostraria o visor do ritmo médio/Km. Por exemplo, a subida seria feita a 4:20/Km, o que desceria a média de 4:05 para 4:07. Depois, no esgalhanço a seguir à rotunda do Marquês, a 3:45/Km, a média voltaria aos 4:05. Este fim de corrida obrigava a que chegasse ao começo das dificuldades a 4:04/4:05. Os primeiros 1000 metros até poderiam ser mais rápidos que o planeado, como no ano anterior, em que a manada tinha partido abaixo dos 4:00/Km.

Mas desta vez foi diferente. Porque havia muito mais gente (em todos os blocos) houve trânsito inicial, com cordões de atletas difíceis de penetrar. “Já fostes”, pensei quando vi 4:15/Km ao passar pelo cartaz do “Km 1”. O segundo foi já na Av. 24 de Julho, a saltitar para cada espaço vago, o que não foi bom para a gestão do esforço. Mesmo assim, ao fim do terceiro já estava com a média encarreirada e com a respiração estável. Meti o piloto automático e desfrutei até voltar ao Cais do Sodré, altura em que o piso irregular e a escuridão exigiam concentração máxima. O relógio marcava os tais 4:05/Km.

A perspectiva da subida ao Marquês era suficiente para deixar-me arrasado, até porque me lembrava bem do que tinha sofrido na edição anterior. Mas, nessa prova, tinha chegado à subida já em más condições, e agora estava com um cansaço saudável. O aglomerado de pessoas que nos apoiava da Rua da Prata aos Restauradores (na verdade, queriam atravessar a rua, mas um gajo agarra-se a tudo) foi alimentando-me, dando até a sensação de leveza e aceleração. As luzes e a música ajudaram a subir quando a avenida se inclinou, mas o comprimento daquela recta não se vencia só com espírito festivo. Os últimos 300 metros antes da rotunda foram difíceis, as pernas pesaram, mas a a coisa fez-se, em grande esforço mas com a espinha direita.

À medida que o centro de gravidade se deslocava para a frente e imaginava a avenida a descer, as pernas emaluqueceram e contornei a segunda metade da rotunda como quem entra nos últimos 100 metros de uma corrida de 200. Os 4:07/Km estavam lá, tal como previsto, e agora era dar tudo por ali abaixo para voltar aos 4:05/Km. Foi mais difícil do que julgava e houve alturas em que me senti a rebolar, aos repelões. Apesar de ter feito o quilómetro mais rápido de sempre em corrida (3:39), não foi aquela descida triunfal que tinha idealizado no sofá… mas o que interessava era o relógio voltar aos 4:05/Km e isso aconteceu ainda com alguns metros por correr. O cronómetro da meta descansou-me e pude atravessar o pórtico com a alegria do sentimento de dever cumprido, confirmado com 41:07 no tempo de chip.

 

Depois da partida lenta, a velocidade em 2017 foi sempre superior à do ano anterior.

 

E agora perguntam vocês: “É só isso? A gente quer lá saber das tuas cábulas, ou se correste em 2017 mais rápido 4.4% que 2016. E os preliminares?” Ah! Ok, então lá vai. Uma semana antes começaram as contas de cabeça – “hoje fiz, amanhã não faço, quarta deve acontecer… sexta também…” – mas, inesperadamente, na quinta-feira, produzi dois dos pilares do Parthenon. Em vez de aliviado, fiquei aflito. E agora? Comer alarvemente para tentar esvaziar antes da corrida, correndo o risco de fracassar e presentear São Silvestre com uma barriga cheia de toda a sorte de porcarias? Decidi seguir a rota da moderação. Fiz bem. No dia da corrida, cheio de força (vertical), estreei-me na Decathlon da Av. António Augusto Aguiar. Uma visita duplamente feliz, pois não só fiz uma excelente compra (uns Mizuno Wave Rider 20 em saldos, por 45 €) como logrei soltar um par de Werther’s Original, mercadoria modesta em volume mas rica em profilaxia no controlo da psíque. Estavam lançadas as bases para um excelente fim de tarde.

Uma última palavra para parabenizar os homens, que ganharam a “Guerra dos Sexos”, a equipa masculina do SL Benfica em geral que ocupou os primeiros cinco lugares, e a luta que a Marta Pen deu à favorita, e natural vencedora, Jéssica Augusto.

 

Vencedores

Samuel Barata (SL Benfica), 29:59

Jéssica Augusto (Sporting CP), 33:52

Fotos: Walter Branco Photography (Organização)

 

4 Comments

  • João Lima says:

    Muitos parabéns por mais uma grande prova!

    Um abraço

  • Epah boa análise. Ainda tens aí espaço de manobra, com uma partida tranquila entravas no minuto 40 à vontade.

    O penúltimo parágrafo: [inserir o emoji das palminhas].

    • Baptista says:

      Grande Filipe!

      Também acho que sim, sem os solavancos do princípio dava para ir aos 40… e acho que em breve, numa prova plana, inserido num grupo a seguir o balão dos 4:00/Km, dá para tentar a gracinha suprema.

      O parágrafo intestinal tem que ser o mais literário, porque senão o lápis azul manda cortar 🙂

      Forte abraço e boas aventuras!

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