Conto: Glória e Aflição no Extremo Oriente

 

O prometido é devido. A partir do local do crime e a pedido de várias famílias, aqui vai o testemunho emocionante de um runner que, numa só noite, subiu ao céu, desceu ao inferno, e voltou a subir ao quarto andar do prédio onde vivia para acabar um serviço.

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Leio muito. Tanto, que já me calharam várias estórias de homens (são sempre homens) que, acossados por agudas dores de barriga, acabaram cagando-se desamparadamente em sítios públicos. Nunca, em idade adulta, passei por situações embaraçosas. A bem dizer, eu cago quando quero e onde quero, pensava. Até que a soberba se desfez, qual castelo de cartas. Seria eu afinal um gigante com pés de barro, ou mais grave ainda, pés com barro?

Aos factos: comecei há poucos meses a correr e estou, neste momento, a tornar-me num promissor veterano. Na noite em que se desenrolam os acontecimentos que vou descrever, era detentor do melhor tempo português nos 10.000 metros de Mokgamcheon, uma ciclovia à beira-rio nos arredores de Seul; uma marca invejável, para a qual contribuiu um cão à solta que me melhorou o tempo do quilómetro 6, compensando as alturas em que sustive a respiração perante o cheiro a esgoto e as nuvens de insectos (comem-se sempre dois ou três, por respeito à tradição asiática). Como estava empenhado em bater o meu próprio recorde, naquela noite decidi mudar um pouco as coisas. Até aí, tinha feito um circuito que incluía duas pontes que me davam cabo do físico. Para que a elevação fosse a menor possível, fui a pé até outro ponto de partida, a quilómetro e meio de casa, para uma corrida praticamente plana. Até dá jeito, que assim alterno andar com um jogging muito ligeiro, para aquecer antes de começar. Ordenei à minha sogra pouca comida: “José an-mani-mogo, José running”, que é como quem diz “José não come muito, José running” e, ao jantar, três horas antes de sair (se tiver comida na barriga, vêm-me logo arrotos), comi um peito e uma perna de frango com molho picante e pouco arroz. A seguir fui à casa de banho, esperançoso de me fazer mais leve, mas para além de um “guelas” e uma goma tipo-Coca Cola, os protagonistas foram os gases, longos e sonoros.

Não sei se foi por ser novidade, se pela ausência de insectos, se pela falta de subidas e descidas, mas o recorde anterior foi pulverizado (o tempo não revelo para não provocar invejas). Já passava da meia-noite quando parei o cronómetro. Como ainda havia uns paneleiros duns ciclistas por perto, fiz uma sessão de alongamentos só para eles verem que apesar dos calções de banho e camisola interior rota nos ombros e sovacos, também sou profissional. Foi enquanto esticava uma perna ao nível da cintura, em cima de uma barreira de sinalização de obras, que senti o primeiro alerta: “apetece-te cagar, querido”. E continuou: “é melhor deixares-te de merdas e ires para casa”. Era uma vontade de cagar como tantas outras, mas pelo sim, pelo não, obedeci à voz interior. Não estava frio, mas corria uma brisa que me arrefecia quando batia na camisola encharcada. O suor da corrida transformava-se em suores frios, à medida que no intestino grosso caminhava, lenta e inexoravelmente, um comboio fecal de várias carruagens. (*)

(*) O intestino grosso tem um metro e meio de comprimento, diz a Wikipedia. Acerca da minha viagem interior, fui informado do seguinte pelo relógio GPS (em inglês, voz feminina): “distance to destination: 1.5 metres, average pace: 8 metres per hour; go home quickly or find a street corner to relieve yourself”.

Como até àquele dia sempre me tinha aguentado, não me preocupei. Continuei a andar com passo firme, mas não rápido, porque a cada movimento sentia aquela morcelona a avançar. As dores de barriga passaram a contracções de intervalo cada vez mais reduzido, com muitos metros ainda por andar até chegar ao prédio, subir quatro andares, dobrar-me para tirar os ténis, dobrar-me outra vez para cumprimentar o sogro, correr para a casa de banho, sentar-me e simplesmente não fazer nada, livrando-me de mim próprio. Já me tinham acontecido súbitas caganeiras pós-treino (é natural, porque ao corrermos pomos os intestinos a funcionar e até previne alguns cancros na zona, dizem os entendidos), mas nunca tinha chegado a esta situação desesperante. Agora estava pálido, sentia tonturas, a pele fria e o andar cada vez mais lento. A cada passo o comboio avançava e a tortura aumentava.

Dizem os especialistas em segurança internacional que um ataque terrorista com um engenho nuclear é uma questão de “not if, but when”. No meu caso, apercebi-me que também não haviam “ses” para aquela bomba-relógio. Também não se negociava um “quando”, mas sim um “onde” (a descarga estava destinada a ser arreada, fosse nos calções, no rio, na estrada, ou nas minhas mãos em concha, daqui a cerca de 180 segundos). Passaram-me várias coisas pela cabeça. Em vez de ver uma luz ao fundo do túnel e a vida em flash até aos dias de criança, em que as fraldas resolviam, comecei a olhar em redor, à procura das câmeras CCTV, que estão espalhadas por todo o lado, incluindo alguns elevadores. As ruas estavam quase desertas, mas o registo em vídeo de um jovem alto, provavelmente caucasiano, um dos quatro ou cinco que vivem nesta Alfornelos de Seul, seria a morte do artista, atleta e homem. Estes “chineses”, versão asiática do puritanismo dos Americanos, não perdoariam: lá se ia a autorização de residência, o emprego (um defecador de rua não deve estar em contacto com crianças), e a vergonha eterna para a família da minha mulher, amaldiçoada por um ibérico cagão. Também havia o perigo de ser avistado por populares. Como lhes explicar, por linguagem gestual e recorrendo ao meu leque de vinte palavras em coreano, a razão de me cagar na via pública? Enquanto as nuvens negras se adensavam, o cu suplicava para ser desviolado. Apesar da já curta distância até casa, não havia tempo a perder: ou improvisava uma casa de banho, ou acabava por desfalecer no meio da rua, com uma mancha castanha a alastrar pelos calções, a convidar as moscas para uma ceia imprevista.

O desespero tomou conta de mim. O meu campo de visão procurava esconderijos, mas havia velhotes (há sempre velhotes na rua, a toda a hora do dia ou da noite) a passear aqui e ali, alguns sentados nos bancos junto ao rio, paralelo à estrada. Onde quer que parasse para obrar, bastava passar um carro ou alguém calhar olhar para o sítio certo para ser apanhado. Para quê teres inventado, meu cabrão? Vale a pena bateres recordes para depois fazeres estas figuras? Agarrado à barriga, cambaleava, marreco (bêbedo! pensaria quem se cruzasse com este caco humano) quando apareceu o meu milagre, o meu Jonas do Bessa, o meu Luís Filipe Vieira das pedras da calçada, a minha possível salvação, fosse eu rápido e discreto.

Entre os carros estacionados e o gradeamento com vista para o rio, fui agraciado por uma carrinha alta e um cartaz político, preso ao separador, precisamente ao seu lado. “É aqui, caralho!” Apressei o passo, sem tempo de olhar para trás, puxei os calções até aos joelhos, dobrei as pernas ligeiramente (porque não tive tempo para mais) e vomitei dois bolos de merda pelo cu afora. Encham a boca de massa de pão e cuspam-na. Foi assim. Mal senti os projécteis caírem no chão olhei para trás, vi que não tinha cagado os ténis (está desfeito o enigma: só tenho pés de barro, não com barro) e continuei a andar, ainda com vontade de cagar mas aliviadíssimo, leve, flutuante, embora preocupado com as câmaras, pessoas e o estado dos calções. Atrás deixei duas doses de estrume hípico, épico, uma borradela singular, no plural.

 

37.486328, 126.857727: aqui jazeram os gémeos

 

Epílogo.   Em casa, caguei minhocas durante largos minutos, com alegres dores de barriga a darem lugar a sucessivas séries de caganitas. No dia seguinte choveu bastante, mas só à noite. Junto à porta da carrinha ficou a sequela de um feito do atletismo internacional, à espera do seu proprietário. Quem sabe se parte de mim não acabou num salto alto apressado? Ou um atraso de quinze minutos a um trabalhador que acabou despedido com justa causa? Pagava para ser mosca, não para provar o meu próprio acepipe, mas para presenciar os gritos de nojo de uma mulher ou o “caralhos me fodam!” do homem que pisou ou quase pisou o meu par de dejectos, mas nem sempre podemos ter o melhor de dois mundos.

Para finalizar… aprendi a lição: nem sempre cagamos quando e onde queremos. Dou agora mais valor a cada dia em que volto a casa sem passar por aflições. Aconteceu-me a mim. Pode acontecer a ti, à tua namorada, ao Dr. Pedro Guerra, ou ao Mira Amaral. Que a sorte nos acompanhe!

 

4 Comments

  • M. says:

    Não querendo ser má pessoa… parti-me a rir, por todos os pormenores e detalhes desta tua aventura, por todas as palavras e incrível (ainda que um pouco nojenta) aventura.

    Óbvio que leitura é muito mais agradável (esta palavra não soa bem neste texto) pela forma como escreves, que é cativante e sem dúvida muito bem escrita.

    Parabéns pelas “duas doses de estrume hípico” e pelas posteriores “minhocas” assim como pelo texto com uma vasta descrição de vontade de cagar e cocó.

    “Que a sorte te acompanhe”

    • Baptista says:

      Oh! Não és nada má, aquilo é mesmo de rir. Até eu, depois da descarga na via pública, fartei-me de rir em privado, durante a descarga em casa.
      Ainda bem que gostaste deste conto asiático 🙂 Hoje, nem de propósito, encurtei um treino que era para ser de 10 Km para 7.5 Km porque me deu uma vontade de mijar inesperada, que quando cheguei à WC do estádio me senti nas nuvens!

  • N. says:

    Épico! O golo do Jonas, claro. O homem começa a jogada no meio campo e vai em sprint até à área para finalizar de forma sublime.

    De resto tens aqui uma bela merda de publicação, se me permites o elogio! Terá aqui sido também batido o número de gargalhadas que dei ao ler um texto teu. Parabéns!

    Tens um talento natural para correr e para escrever. Nunca os percas aí pelos becos e vielas de Alfornelos de Seul.
    Grande abraço!

    • Baptista says:

      Aquele golo é uma coisa do outro mundo! Antes da bola lhe chegar já se sabia que ia parar lá dentro!

      Esta também foi a história que mais gosto me deu recordar… foi tão intensa que até um analfabruto a contava com graça! Espero não ter outras do género tão cedo 🙂 Agora já não é Alfornelos (isso era a casa dos sogros), agora é uma espécie de Sacavém de Seul, onde também não se está nada mal!

      Abração, tudo de bom para 2018!

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