5.ª Meia Maratona dos Descobrimentos (Parte 2)

 

Tinha planeado, depois da Meia Maratona de Bruges em Outubro, dedicar-me às provas curtas até ao final do ano. Para a primeira quinzena de Dezembro, estava indeciso entre os 10 Km dos Descobrimentos, ou o Grande Prémio de Natal. Entretanto, tinha começado a seguir um plano de treinos para uma hipotética maratona em Fevereiro ou Março e meti na cabeça que haveria de testar em três distâncias com exigências muito próprias (5 Km, 10 Km e 21.1 Km) as boas sensações iniciais. Assim, aos 5 Km da Corrida Luzia Dias, acrescentei a Meia Maratona dos Descobrimentos, fechando o ano com a intermédia São Silvestre de Lisboa.

Sobre o novo plano de treino, que estou a seguir religiosamente, falarei em breve noutro post, mas não posso deixar de realçar a alegria redobrada com que nas últimas semanas tenho saído para correr. Sei que nem todos gostam das imposições de um plano; pessoalmente, tenho muito prazer em calendarizar os quatro treinos semanais consultando a meteorologia, programando as distâncias, calculando os ritmos, adequando os percursos ao tipo de corrida, moldando a respiração à intensidade, acertando a amplitude da passada, e por aí fora. Desde que descobri que há (pelo menos) cinco intensidades de treino e a razão de ser de cada uma, que me sinto mais confiante e competente. Estava cheio de “fome” e uma corrida longa, plana e fresca era a oportunidade ideal para testar a “ciência”.

Dois dias antes da prova, tive um revés. Depois do jantar, desenrolou-se uma ida à casa de banho verdadeiramente notável, a ponto de bater com a cabeça no tecto quando me levantei da retrete de tão leve que me tinha tornado. Tudo isto seria muito bonito, maravilhoso até, se tivesse acontecido na véspera. Fui à varanda, fitei a lua e murmurei, “vais carregar em Belém o que comeres até lá”. Mesmo assim, quis acreditar que era possível expulsar nem que fosse um baguinho simbólico e estive atento aos sinais do corpo no dia seguinte. Depois de muito apalpar a barriga e alguns “oh! será que afinal…?” quando soprava pela cueca, resignei-me: cu que ladra não obra.

A outra contrariedade foi a falta de sono. Na ante-véspera tinha dormido muito, mas de Sábado para Domingo foram, no máximo, três horas de sonhos confusos e sobressaltos por causa do alarme que se podia esquecer de tocar. Quando decidi que já não ficava mal acordar, pulei da cama e fiz as coisas do costume, com a excitação e ligeireza de quem se está a preparar para um encontro com uma mulher mesmo boa (ela tendo já garantido que “deixa”). Felizmente, durante o dia senti-me fresquíssimo como a temperatura do ar e só comecei a bocejar que nem um selvagem ao fim da tarde.

 

Espaços amplos, bom ambiente e os primeiros aquecimentos

 

Cheguei a Belém com muita antecedência, encontrei o Fragoso, meti o dorsal, o chip, olhei vinte vezes para o relógio, alonguei, dei umas corridinhas, mija, não-mija, mija agora, mija ali que tem urinol e não esperas, despe, deixa-te estar mais um bocadinho, olha as horas, tira isto, mete aquilo, liga já o GPS para apanhar o sinal, fila para o bengaleiro, tira-as-calças-põe-os-calções, resguarda o pescoço, caga nisso, come a barrinha, porra que a água ficou na mochila e agora estás todo seco, despacha-te que há confusão nas entradas dos blocos, faltam 10 minutos diz o speaker, onde é que é a entrada azul, ai caraças deixa-me passar, senhora! É sempre assim: no princípio sou só eu, os pombos e as gaivotas, os voluntários e algumas almas depenadas… pouco a pouco, instala-se a animação e acabo em correrias, como se tivesse chegado em cima da hora.

Soou o apito, a multidão distendeu-se, criaram-se espaços e fui fazendo o meu percurso, sempre com um olho no relógio. Depois da média de 4:23/Km em Bruges, tinha decidido encarrilar nesse ritmo até aos 15/16 Km e dar o que restasse no último quarto. Tinha a esperança que, ao contrário da última experiência na distância (em que o calor não tinha ajudado e tinha sido algo irregular na cadência, com alguns quilómetros iniciais demasiado rápidos cuja factura tinha pago mais à frente), a melhor forma física e o frio tornassem suportáveis esses 4:23/Km. A verdade é que, inserido num largo pelotão, o corpo pedia mais e a mente amansava-o, lembrando aflições passadas. Os quilómetros foram passando e continuava a sentir-me como novo, tranquilo e em modo de meditção activa, só importunado por pequenas rajadas de vento, as sombras frias debaixo dos viadutos, e os protestos das pernas para me deixar de mariquices e dar gás. Deixei que a voz do “tem calma” fosse ganhando a luta à voz do “dá-lhe, maricas!” porque sentia que o objectivo estava na mão e, ao mesmo tempo, estava a ter prazer em correr.

 

“Oh meuz amígoze… hmm… dizei a esse jovem… para controlar os impulsoz-eze… qualquer dia, com aquélaze pérnaze móleze, hmm… faz um quilómetro a mênoze de 4 minútoze-eze…” (Só percebe isto quem conhece o Diácono Remédios. Quem não conhece, tem que largar já tudo, incluindo isto, e ir vê-lo ao Youtube.)

 

As águas eram distribuídas de 5 em 5 Km, por isso fui obrigado a tomar o gel a meio da prova, em vez de tentar esticar um pouco mais para lá dos 10 Km, como costumo fazer. Por um lado, diz-se que se deve tomá-lo nunca antes dos 50 minutos de exercício, mas aos 11-12 Km não teria água para diluir. Por outro, tomar o gel já em défice pouco ajuda, por isso foi fresquinho como uma alface que me nutri aos 44 minutos, sentindo-me cada vez mais capaz. Continuei a reprimir-me, apesar da média descer um ou dois segundos. Por essa altura, depois do retorno, fazíamos uma incursão pelo Rossio, onde o piso não aconselhava a grandes loucuras.

Quando virei à direita depois de descer a Rua Áurea, o vento parou (ou melhor, soprava a favor, mas não se notava) e o sol de frente batia na conta certa, morno e provocador. Estava a poucos minutos da última água, ao Km 15. À passagem pelo pórtico, o relógio marcava 1:05:02 (4:20/Km) e o objectivo estava conseguido a não ser que torcesse um pé, porque energia não faltava. Quando me livrei da garrafa, soltei as amarras do compromisso imposto até aí e comecei a acelerar, com a sensação quase idêntica à de um treino de séries, em que depois de X quilómetros de aquecimento, o relógio apita e as pernas disparam. Mas esta série não era de dois minutos, nem um quilómetro, nem uma milha… tinha à minha frente 6.1 Km e era para deixar tudo no alcatrão. Comecei a ultrapassar, um a um, corredores que iam fortes, a um ritmo estável. Temi que tivesse abusado no esticão e, sempre que me senti fraquejar, obriguei as pernas a responder. Ao Km 19 estava já em dificuldades, mas olhei para o relógio e vi “4:16”. Alto! Tu queres ver que…

O sonho dos sub-1h30 é um velho conhecido. Não estava programado para esta prova, porque tirar quase dois minutos a uma recorde conseguido a muito custo nunca me tinha atravessado a cabeça (e acreditem que contemplo todos os cenários possíveis e imaginários nas semanas anteriores a uma corrida), mas sei há muito tempo que uma meia maratona de 1:29:59 é feita a quase 4:16/Km (4:15.9, para ser rigoroso) – e eu estava, sem dar por isso, a aproximar-me dessa barreira. O facto de saber que aquele 4:16 podia ser um “16 alto” – o relógio não arredonda – não me apaziguou a súbita excitação de alcançar algo inesperado e comecei a acreditar. Dificilmente chegaria aos 4:15, ou será que ainda dava? Não estavam reunidas as condições para me entreter a fazer cálculos. A faltarem menos de 2.000 metros e com as pernas a quererem empapar, lembrei-me da máxima, um bocado tresloucada, do grande Emil Zátopek: when you can’t keep going, go faster. Corre, cabrão!

 

A aceleração vertiginosa a partir do 15.º quilómetro

 

Não sabia o que ia encontrar na meta, mas cheguei em sprint, ou pelo menos foi a sensação que tive. O relógio oficial marcava 1:30:23. Qual seria o tempo de chip? O meu relógio marcava 1:30:04. Ainda não era desta, ou melhor, quase que tinha sido desta. Não fiquei frustrado para lá de um natural “ihh car*$&, fod*~!#, por tão pouco! Cinco segundos!”… e fiquei contente por saber que estou em condições, que vou conseguir, que em breve vou poder viver essa sensação, do primeiro ao último quilómetro, em crescendo de alegria. Se tivesse programado um sub-1h30 nesta corrida, o que pensar se falhasse com estrondo? É preferível assim, seguro e firme. Difícil é conter-me na próxima, porque levei uma injecção de moral difícil de gerir, qual Jesus depois de dar uma entrevista a um jornalista a falar estrangeiro.

Ainda não tenho a próxima meia maratona definida, mas em princípio será em Seul, se aquilo não for pelos ares antes de 11 de Fevereiro. Esperam-me condições duras: temperatura negativa, vento forte e ar seco. Se der, deu.

 

Vencedores

André Costa (aminhacorrida.com & #47 My Protein), 1:10:08

Vera Fernandes (RB Running), 1:18:27

Fotos: Fernanda Silva, Running & Medals, aminhacorrida.com

 

6 Comments

  • João Lima says:

    Muitos parabéns pela fantástica marca!!!
    Isso já é doutro nível! 🙂

    Quanto ao dormires mal na véspera, faz parte. Sucede também a todos os campeões em vésperas de grandes competições. Desde que se tenha dormido bem nas noites anteriores a essa, não faz diferença.

    Um abraço e força para tirares esses 5 segundos!

    • Baptista says:

      Obrigado, João!

      Durmo sempre pouco, mas desta vez foi demais. Foi quase uma directa, despertíssimo até às 3:00 e sono conturbado a partir daí. Mas olha, com a excitação, tudo passa. Se tivesse tido que acordar para passar a manhã na Segurança Social ou num centro comercial… até uivava!

      Grande abraço e boa recuperação!

  • N. says:

    Eu quero comentar o texto, mas ainda não consegui parar de rir com muitas das tuas tiradas. A do Diácono então matou-me!
    Muita pena não nos termos encontrado por lá, estive na meta a tirar fotos e não te vi ou não te reconheci.
    Grande abraço!

    • Baptista says:

      Eheheh o Diácono é sempre bom para temperar o atleta, o maior tira-tusa de sempre! Se entrasse a Rute Remédios (lembras-te?) em cena é que estava tudo estragado…
      Pois eu soube que estavas por perto quando o Joaquim chegou à meta, andei por ali montes de tempo e não calhou ver-te.
      Vais à SS de Lisboa? Se sim, lá nos veremos!
      Abração!

  • Epah grande prova! Quem me dera ter esse controlo como tiveste até aos 15km. Faço muito poucas provas de estrada, mas, tirando as maratonas, parto sempre à morte. E que bom relato! O teu blog já é de paragem obrigatória, parabéns por mais um excelente texto!

    • Baptista says:

      Obrigado, Filipe! É sempre difícil um gajo controlar-se, concordo! Lá me consegui conter, mas ao mesmo tempo já estava a pensar que “se fosse dia de maratona, podia continuar assim até ao fim”, o que é um delírio… Um gajo até começar a sofrer parece que se esquece de como as coisas são.
      Grande abraço e força aí!

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