10.ª Corrida Luzia Dias (5 Km) (Parte 2)

 

Das seis distâncias que pretendo experimentar em corrida (5, 10, 15, 20, 21.1 e 42.2 Km), havia três que ainda não tinha feito. À Maratona, lá chegarei; aos 15 Km, menos comuns (mas com opções interessantes), ainda não calhou; quanto aos 5 Km, costumam estar integrados em provas mais longas, mas na opção “caminhada”. Há algum tempo que andava à caça de uma prova de 5 Km para ver se era capaz de a concluir em menos de 20 minutos e a Luzia Dias foi, da oferta reduzida nessa distância, a que me chamou mais a atenção.

 

Luzia Dias, madrinha da corrida, integrou equipas (clube e selecção nacional) que ganharam provas internacionais; Armando Aldegalega (completa 80 anos daqui a uma semana!), que representou Portugal nos Jogos Olímpicos de 1964 e 1972 e ganhou vários títulos internacionais na categoria de Veteranos, foi outra figura ilustre que marcou presença.

 

Tinha um plano maquiavélico para uma coisa que, à partida, um gajo normal como eu, e a grande maioria dos outros, não alcança: subir ao pódio! São coisas que estão fora do nosso alcance, mas já estiveram mais. É verdade que a massificação da corrida em Portugal leva a que, em termos relativos, uma pessoa que treine regularmente fique “lá em cima” com tempos que, há 20 anos atrás numa prova idêntica, não passariam da última página da classificação. No entanto, daí a chegar aos 3 primeiros, vai uma grande distância. Quando as provas têm milhares de participantes, há sempre muito mais que três de cada escalão que estão num patamar muito superior. Quando são menos concorridas, quem fica em casa tende a ser o “gang da selfie” e levamos tareões de castiços de todas as idades, para além de que normalmente se premeiam apenas os três primeiros da geral. Foi o que me aconteceu em Almada, onde o meu 13.º lugar da geral nos 10 Km (enquanto os outros corriam a Meia Maratona) me levaria ao pódio (2.º no M35).

Desde que comecei a treinar com juízo (em vez de tentar bater recordes cada vez que saía à rua) que não sabia qual o meu potencial aos 5 Km. Já tinha feito, há muito tempo, um treino em 20:22, em que tinha dado o máximo, num percurso plano. Depois desse, o mais rápido que tenho corrido essa distância em treino é a um ritmo ligeiramente acima do objectivo para uma meia maratona (21:25, a 4:21/Km). Por outro lado, o ritmo-alvo para o treino intervalado é de 3:55/Km, mas para séries de 750 metros com descanso entre elas… e manter a pedalada durante 5 Km, mesmo a 3:59/Km, parecia-me tarefa quase impossível, dado que o percurso tinha muitas subidas e descidas. Mesmo assim, agarrei-me à esperança de ter evoluído nos últimos meses e ao meu espírito, que fica possuído quando sente o cheiro a dorsal no peito.

A Corrida Luzia Dias afigurava-se como a tempestade perfeita: prémios para todos os escalões e uma corrida principal (10 Km) para os tubarões e outra menos concorrida (5 Km). Nas classificações passadas, dado o número elevado de escalões, vi que chegar ao top-3 era possível, até provável. Durante meses mantive-me em silêncio. Nos cafés, tinha suores frios quando ouvia na mesa do lado alguém perguntar se podia recomendar uma mulher-a-dias. A gente sabe lá, às vezes uma coisa leva à outra: “mulher-a-dias não te recomendo nenhuma, mas por falar nisso, já te inscreveste na Corrida Luzia Dias? Devias experimentar a prova dos 5 Km… há prémios por escalão… e tu andas fortíssimo, apesar de estares perto dos quarenta!”

Temi que, depois de semanas de investigação, qual “Sexta às 9”,  a corrida não se realizasse, pois a abertura das inscrições tardava. Mas, numa manhã como as outras, fui informado pelo meu cúmplice “Sérgio” (nome fictício), corri para o computador, depois para o multibanco (a 3:30/Km), e antes do almoço já estava tudo tratado. No caso de falhar o pódio, estava garantido, pelo menos, o prémio “Inscrição mais rápida” – dorsal 1001.

 

À esquerda, um indivíduo; à direita, Francis Obikwelu, 2.º classificado nos 100 metros nos Jogos Olímpicos de Atenas (2004) e inúmeras vitórias entre Mundiais, Europeus e outras provas internacionais.

 

Na linha de partida, reparei que havia muita juventude com dorsais vermelhos. Cheguei-me à frente, a buzina soou, e a largada foi rápida. Já sabia que ia ser assim, mas quando olhei para o relógio e vi 3:25/Km abrandei o passo e deixei que passassem por mim. Principalmente nos inícios em que se começa lá da frente, depois de uma espera pelo sinal de largada com as pernas quentes, a pedir acção, há uma excitação contagiante que pode levar ao abismo. Se me regulasse pelo “sentir-me bem” e ignorasse o visor do relógio, era sempre a aviar… até encostar na berma. Assim, com juízo, deixei que os afoitos me passassem – mais tarde, havia de os voltar a encontrar. Apesar das subidas e descidas, o ritmo estabilizou em 3:54/Km (em vez dos 4:00 que tinha previsto para, mais perto do fim, ter pernas para dar tudo e baixar dos quatro).

A regularidade da passada não significou que tivesse sido um passeio, antes pelo contrário, porque o cansaço foi-se apoderando e cada vez custava mais manter uma velocidade que me é estranha. De tal modo desgastado fiquei que, nos últimos 800 metros, desacelerei consideravelmente e, já a uma centena de metros da meta, fui ultrapassado por meia dúzia, caindo do 12.º para o 18.º lugar, separados apenas por 8 segundos. Como, por regra, sou bastante ajuizado na gestão do esforço e estou habituado a ultrapassar em vez de ser ultrapassado nas partes finais das corridas, ser comido daquela maneira (e por tantos, homens e mulheres, ao mesmo tempo) foi desmoralizante. Mesmo assim, a missão foi cumprida com 19:32 e o primeiro lugar no meu escalão (M35), o que deu direito a um brinde que irei para sempre estimar (pode ser o primeiro e único deste género!) e a alegria da tal subida ao pódio que a Luzia Dias proporcionou – a mim e a muitos outros que, como eu, adoram correr mas não são grande espingarda.

Por curiosidade, e para verem como estas corridas mais curtas não são para velhos grisalhos, o tempo que fiz daria a seguinte posição nos vários escalões: Jun. (≤19) 6.º / Sen. (20-34) 6.º / M35 (35-39) 1.º / M40 (40-44) 2.º / M45 (45-49) 2.º / M50 (50-54) 2.º / M55 (55-59) 2.º / M60 (60+) 1.º. Como se vê, se tivesse um ano a menos, os putos enviagrados davam-me um banho; dos 35 em diante, qualquer escalão daria direito a prémio, mas só o meu e o M60 o primeiro lugar.

E, para acabar este post chato, com tanta conversa de pódios, escalões e tempos, que não interessa a ninguém a não ser a mim, uma nota final para enviar uma saudação não só aos jovens (abaixo) que ganharam a corrida, mas também aos muitos outros que foram as estrelas da manhã. São estas iniciativas locais, acolhedoras, terreno fértil para lhes incutir o gosto pelo desporto e competição, ajudando a afastá-los de porcarias que fazem mal e que até estão mais à mão. Parabéns pela organização e que se mantenha durante muitos anos!

 

Vencedores

Cristiano Borges (SC Reboleira e Damaia), 15:57

Leila Semedo (Individual), 19:24

Fotos: Run 4 FFWPU; Nuno Fragoso; Running & Medals

 

10 Comments

  • João Lima says:

    Vencedor de escalão!!!
    19.32!!!!!

    O que hei-de dizer mais? (além dos muitos parabéns ao atleta voador!)

    Um abraço e que seja o primeiro pódio de muitos!
    (também há que escolher bem as provas. Numa Meia em 2010, houve um engano no percurso para os 4 últimos, fiz quase 23 km, cortei a meta em último e quase que ia ao pódio pois fiquei em 4º no escalão, eh eh)

    • Baptista says:

      Obrigado, João!
      Foi uma sensação especial e estranha, porque estas coisas acontecem quando as estrelas se alinham…
      Por curiosidade, fui ver a classificação, e para o teu escalão ias lá sacar um bronze. 😉
      Foi azar, essa Meia! Ele, pódio, há-de chegar…
      Abraço!

  • Hehehe … estas “rapidinhas” tem o condão de nos deixar com os pulmões de fora e literalmente à morte durante os 5min após chegar à meta 🙂 … que fique bem claro, que só estou a falar de corrida … bateste a marca que queria fazer em quase meio minuto e isso em 5km. Em cima disso, ganhaste o teu escalão e subiste ao pódio (ao lugar mais alto) … perfeito!!!
    Muitos parabéns.
    Aquele abraço

    • Baptista says:

      É verdade, Carlos! Apesar do tempo, depois de cortar a meta fiquei desorientado, quase revoltado, com tamanha tareia. Ainda por cima vejo logo adiante os miúdos que já tinham chegado “há bué da time” nas massagens, fresquinhos e ensonados ao mesmo tempo, prontos para mandarem outra de 5 Km se fosse preciso…
      Obrigado e um abraço para ti também!

  • joana narciso says:

    nao fui porque nao estava inscrita

  • N. says:

    Que grande marca! Parabéns pelo esforço de teres mantido esse teu objectivo em segredo e por teres conseguido conquistá-lo!
    Confesso que já este ano andei a planear algo semelhante numa prova de 10km mas acabei por não me inscrever. Um tempo semelhante ao meu melhor daria para um top-30 da classificação geral e um top-10 do meu escalão. Talvez para o ano…

    Pelas fotos parece-me que para conseguires ganhar aos putos faz-te falta uma coisa óbvia…..
    ……
    …….
    ……

    um g’anda cabelo!!

    Abraço!

    • Baptista says:

      Obrigado!
      Epá mantém essa prova em segredo 🙂 Não estou exactamente a par do teu ritmo, mas imagino que também seja uma prova generosa, eheh
      O problema para vocês, os “jóves”, é o escalão…
      Pois olha nem tinha reparado no pormenor do cabelo! Não havia, nem haverá hipótese, que o meu cresce como o do Fernando Girão (ver google).
      Abraço!

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