O meu primeiro treino debaixo de água

 

Uma amiga da minha mulher fez-nos uma visita de vários dias. No atelier temos um sofá-cama, mas já não me lembro como é que aquela bodega se abre, nem teria paciência para procurar lençóis e mantas, preferindo dormir eu todo encolhido nesse sofá e dar luz verde a serões inesquecíveis de fressura entre as amigas. Assim sendo,  esta semana estive afastado do computador e sem possibilidade de escrever, mas a verdade é que não tinha assunto. Pensei inventar uma história qualquer (mordidela de um lobo num “longão” nocturno? avistamento de um OVNI?), mas arranjei tema quando menos esperava, com o patrocínio do São Pedro… e que tema! Posso adiantar que há um pré- e um pós-3/11 na minha carreira desportiva.

À pergunta “onde é que estavas no 3 de Novembro, seu fascista?”, tenho que recuar ao dia 2, véspera da revolução da chuva. Na madrugada desse dia tinha chovido torrencialmente durante uns minutos, a ponto de ter acordado com o barulho da água a bater no parapeito. Ao contrário do habitual, treinei de manhã (17.5 Km), planeando correr no dia seguinte ao final da tarde, para poder treinar dois dias seguidos (quero passar a 4 vezes por semana) mas com mais de 24 horas de descanso. Esse treino matutino foi desagradável, com vento fresco, aguaceiros fracos a alternarem com um sol que torrava e, no piso ainda molhado, pequenas poças de água que, ao serem pisadas pelo pé direito salpicaram a meia do pé esquerdo (e vice-versa). A hora pouco habitual de saída, o ritmo pastelão imposto e o frio e o calor para o qual não havia roupa adequada irritou-me. Mesmo assim, nem tudo foi mau. Dois aspectos positivos: (1) um casal de chineses a correr (2) que me cumprimentou quando passou por mim (ainda por cima ele tinha um casaco corta-vento da Maratona de Sevilha, grande pinta!).

Acordei no 3/11 com a recordação dos salpicos desagradáveis e um treino de 10 Km em ritmo de maratona (4:35/Km) agendado para o final da tarde. O céu esteve carregado o dia todo, com descargas de água diluvianas mas breves. Até ontem – e em ano e meio de treinos regulares – nunca tinha corrido debaixo de chuva “a sério”, só uns aguaceiros fracos e chuviscos molha-parvos. Mas ontem cresceu em mim uma vontade estranha que a chuva me tirasse os três (o vento é cliente habitual). Enquanto me esticava e equipava, quase em segredo para a malta cá de casa não me tentar demover, caía mais uma descarga louca. Avisei que ia dar uma corridinha em voz baixa; tentaram, em vão, travar-me; saí.

Lá fora voltava a chover moderadamente. Fiquei aliviado por ver que não era o único na rua, mas era o único que não usava impermeável. À excepção dos calções, toda a minha indumentária era uma esponja à mercê de São Pedro. Nos primeiros metros saltei da ciclovia para a berma da estrada para me desviar de poças. Depois, senti uns projécteis vindos do mar a atacarem-me a cara como um chuveiro de gravilha com boa pressão. Cada vez mais envolto naquele “nevoeiro”, tinha que olhar para o lado oposto ou cerrar os olhos, não fosse um pingo certeiro vazar-me uma vista. Estivesse eu em casa, ficava colado à janela a perguntar-me o que aconteceria se aquela bátega se prolongasse durante umas horas. Num instante, começou a jorrar água de goteiras que nunca antes tinha visto, os carros que passavam lançavam cortinas de água e eu ora chapinhava numa película fina de água, ora saltava com estrondo e alegria em poças de água, rios de água sem rumo, sentindo um fresquinho pegajoso nos pés que era a água a infiltrar-se nos pés.

(Repararam na repetição exaustiva da palavra água? Não foi por acaso. Apreciaram a figura de estilo? Não é bem uma anáfora, mas quase. Inspirei-me na mais celebrada quase-anaforista portuguesa do séc. XX, que no vídeo abaixo declama “Humidade”.)

 

 

Quando olhei para o relógio pela primeira vez vi que estava a correr ao ritmo que queria. A chuva continuava, com intensidade variável, mas os carros eram menos, gente já não se via e começava a pensar se deveria encurtar o treino para 7.5 Km. A razão mandava-me voltar para trás, mas o coração pedia para seguir em frente. Na verdade, estava molhado até às cuecas e mais que isso era impossível. As pernas estavam frescas e muito vivas, não sentia cansaço apesar de carregar na roupa vários quilos a mais, e tudo aquilo me estava a dar um enorme gozo. Nem suor, nem frio, nem calor. Bendita chuva e bendita a ideia de sair de casa! Nem reparei nos 3.750 Km marcados no chão (provavelmente submersos) e segui a viagem, alegre como um animal fugido do cativeiro.

 

Eu só uso duas patas.

 

Uns metros antes do retorno, vi um relâmpago. Veio-me à memória a história do homem que tinha morrido electrocutado na praia por um raio atraído pelo discman. “Ainda bem que é para voltar agora, se é para ficar reduzido a cinzas, não me podem acusar de ser irresponsável, porque estava a fugir para casa”. O flash seguinte, mudo outra vez, chegou alguns minutos depois, mas foi o último. Até ao fim, a sensação de frescura e vitalidade continuou e acabei o treino com os tais 4:35/Km. Em casa tomei outro duche, desta vez com água morna, e senti-me maravilhosamente bem.

Será que da próxima vez, passado o efeito surpresa da estreia, a roupa pesada me vai desgastar? Que as rajadas de água me vão irritar? Que chego ao fim cansado e arrependido? Será que esta primeira experiência aquática não me cansou tal como a primeira ganza não dá moca (a um primo meu, contou-me ele)? Venham mais uns dias de chuva intensa para tirar tudo a limpo.

 

6 Comments

  • ahah muito bom. Nada como entrar em fase safoda num treino. Acho que nunca fiquei cansado a correr à chuva. Mas chuva a sério, não é aquela que incomoda! Ah, e isso do impermeavel é um mito urbano, se vais correr esse tempo mais vale ir à selvagem! Cuidado é com a ‘midade.

    • Baptista says:

      Acho que foi das melhores sensações que tive desde que corro (só atrás de cortar metas). No momento em que caguei nas preocupações da secura fiquei nú, selvagem como dizes, e enviagraram-se-me as pernas, mesmo! Concordo que o impermeável (especialmente) em dias de temporal é treta. Se o tivesse, tinha ficado com os pés enregelados (que os ia molhar na mesma) e iam-me entrar pingos desagradáveis a escorrer-me pelo pescoço…
      Abraço!

  • N. says:

    O que eu me fartei de rir com este texto! Eu sou de extremos… adoro treinar à chuva mas detesto fazer provas debaixo de água. Há dois anos apanhei uma molha antes da São Silvestre dos Olivais e miraculosamente parou de chover 2 minutos antes da partida. No ano passado, na Meia Maratona dos Descobrimento caiu uma carga de água brutal antes da prova que durou durante 2/3 da prova. Fiz uma birra monstra porque não queria correr de impermeável. As fotos desse dia ficaram incríveis!
    Abraço!

    • Baptista says:

      Como nas corridas sou muito virado para os tempos, também acho que as prefiro sequinhas (ainda por cima comprei uns Asics Gel Pulse 8 e é unânime que os gajos na chuva pregam sustos). Fora isso, impermeável fica em casa ou, no meu caso, na loja 🙂 Essa MM dos Descobrimentos vai contar com o Baptista este ano, por isso se fores encontramos-nos lá! Nesse dia do dilúvio (2016) estava em casa a olhar para as horas e pela janela e a pensar “coitados…” porque tinha lá amigos a correr. Eu já estou por tudo, frio ou chuva tanto faz, só não quero manhãs de calor em dia de corrida.
      Abraço e, já agora, muitos parabéns pelo Porto! Maratona, claro!

  • João Lima says:

    As cargas de água que já apanhei… Mas olha, nessa Meia dos Descobrimentos no ano passado, é onde está o meu record em Meia e por cerca de 3 minutos e meio! Devia ser para acabar rápido com aquilo! 🙂

    Mas inesquecível, inesquecível foi o Grande Prémio do Atlântico 2011. Chuva brutal e um pé de vento que nem te digo.Um verdadeiro temporal do pior. Depois daquilo, qualquer um fica vacinado para qualquer chuva, eh eh

    Um abraço e boas corridas!

    ps – Só não percebi uma coisa no video. Qual era mesmo o problema da senhora? 🙂

    • Baptista says:

      Pelos vossos comentários cada vez me convenço mais que a água é um bálsamo para as pernas!
      Esse GP do Atlântico deve ter sido bonito… é que a partir de uma certa altura, “quanto pior, melhor!”. Desde que não caiam árvores, é uma diversão, eheh
      E agora vou ler o teu texto sobre a 9.ª Maratona 🙂
      PS – As pessoas nunca se explicam bem. Não se chega a perceber se é humidade ou o barulho dos vizinhos…

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