Great Bruges Marathon (21.1 Km) (Parte 2)

 

 

Depois de tantos meses à espera do grande dia, não quis correr riscos e achei prudente sair de casa às 7:00, chegar a Bruges às 8:00, recolher o dorsal e fazer tudo calmamente (comer, esticar-me, dar umas corridinhas) para, às 11:00, começar a prova com a sensação de que estava a correr mais tarde, como gosto. O sr. Manolo, irmão e chauffeur por um dia, foi um bom camarada que alinhou em tudo. Como nas noites anteriores tinha dormido muitas horas (apesar dos pesadelos), as menos de cinco na véspera não me mandaram abaixo (como é comum não se dormir bem na última noite, é fundamental descansar bem nas anteriores para compensar, li eu há poucos tempo).

Naturalmente, não houve trânsito e à hora prevista fui buscar o dorsal. Apesar das 6.000 inscrições entre as duas distâncias (42.2 Km às 9:00, 21.1 Km às 11:00) fui atendido de imediato. (Mais tarde viria a perceber que quase todos devem ter recolhido o kit no dia anterior, porque a esmagadora maioria dos atletas eram belgas e, mais de metade, de Bruges.) Depois da luta para prender o dorsal à camisola, tive duas horas e meia de espera. As poucas pastelarias abertas ao pé da praça central eram de altíssimo gabarito, mas os preços eram como os de cá… mas com mais um zero. Como um dia não são dias, os meus entes queridos sentaram-se a comer o pequeno almoço (completo, mas miniaturizado) do menú e eu aproveitei para largar o “berlinde da sorte” (vide Parte 1) numa casa de banho impecavelmente asseada, a contrastar com a péssima visão que tive numa outra, portátil, algum tempo antes, quando tinha ido fazer um xixizinho e me deparei com quilos de mousse pintalgada com amendoins (aquilo foi obra de alguém, que naqueles cubículos não cabem elefantes).

 

A parte picotada do dorsal deu direito a uma cerveja especial local (que sabia a Sagres, o que me agradou) e dois pequenos pratos com comida.

 

A manhã aquecia e eu estava em pulgas para me equipar, pelo que deixei a família a respirar requinte (bem o pagámos…) e fui dar um passeio em passo rápido. Estiquei-me, fiz alguns minutos de corrida lenta até à partida, voltei ao café, voltei a sair, corrida lenta, voltei a entrar e assim sucessivamente, como um doidinho. Nas ruas, os grupos de atletas a correr em todas as direcções aumentavam. Eles eram altos, musculados, sem pelos; elas, atléticas, também não tinham pelos. Olhei para as minhas tristes pernas, tão amadoras e pilosas, nem uma tatuagenzinha a dar um ar de modernidade… e eles tão grandes, brilhantes e bem alimentados. Se estivesse ali para ganhar, era possuído por “pânico Mamediano”. Mas estava tranquilo; o objectivo era só ser melhor que a minha sombra de Caminha (1:33:07), se possível conseguindo um sub-1:33.

 

Momentos antes da partida

 

Havia blocos de partida para menos de 1h30, 1h40, 1h50 e 2h00. Cada participante entrava naquele que achasse adequado (eu fiquei no sub-1h40, apesar da vontade de me meter no mais rápido, mas lá atrás), não tendo a organização que recorrer a capangas para efeitos de fiscalização. Em Portugal, quando não há blocos de partida, o provérbio “amigo não empata amigo” é assassinado; quando os há, mesmo assim há quem tente e consiga contornar o sistema; e se se abrissem os blocos à consciência das capacidades de cada um? Será que a maioria dos corredores teria a maturidade de partir do sítio adequado? Seria uma experiência interessante perceber até que ponto somos diferentes dos outros.

A partida decorreu sem incidentes. Cada bloco partia com meio minuto de intervalo e havia outra particularidade que por cá também se podia implementar, principalmente em provas sem blocos de partida ou com caminhos estreitos no início (como era o caso de Bruges). Antes de passar por baixo do pórtico START, havia barreiras a afunilar a saída, ou seja, congestionava-se antes para não se congestionar depois de activado o chip. Assim, fomos saíndo como areia de uma ampulheta para ruas que, apesar de apertadas, não sufocavam.

O meu plano era acabar com um ritmo médio de 4:22/Km (que se traduziria em 4:24 depois do ajuste dos 200 a 300 metros a mais que o relógio marca no fim das meias maratonas), abaixo dos 4:23/Km (4:25 reais) conseguidos em Caminha. Dado que o percurso era praticamente plano, era fácil traçar a estratégia, que passava por começar mais lento (4:35) e aproximar-me, lentamente, dos 4:22/Km até ao fim da corrida. Tinha tudo escrito e decorado, incluindo os tempos parciais aos quilómetros 5, 10, 15 e 20, mas quando vi o relógio a marcar 1.05 Km à passagem da placa a indicar Km 1, pensei “se por cada quilómetro isto marcar 50 metros a mais, acabo a prova com mais de 22 Km no relógio e o ajuste dos 4:22/Km vai-me dar mais uma média mais lenta que 4:24/Km. Confuso(a)? Não faz mal. Sentia-me bem (pudera, Km 1!), ia a ultrapassar a malta do meu bloco, e fiz por compensar o desvio do GPS (provavelmente fruto das ruas estreitas do início da corrida) acelerando um pouco o passo. Sem o saber, penso que fiz bem, porque tinha o vento por trás e várias sombras.

 

Parte do percurso incluiu caminhos estreitos, paralelos à estrada

 

Quando decidi correr em Bruges, para além da planicidade do percurso, agradava-me o clima frio. Agosto e Setembro tinham sido frescos e chuvosos, por isso nada fazia prever um dia quente a meio de Outubro (a ponto de se ter reforçado, excepcionalmente, o número de comboios de Bruxelas em direcção ao Mar do Norte nesse fim-de-semana). Por outro lado, previa-se vento moderado a soprar de sul. A ideia de “corrida perfeita” ficou definitivamente posta de parte quando, ao Km 13, levei ora com o sol nas trombas, ora com uma ou outra rajada de vento. Entre uma coisa e outra, era preferível o vento; sem ele, o corpo fervia em menos de nada. Foi por essa altura que tomei o único gel que levava, muito mal acompanhado de água porque, tal como na Coreia, era servida em copos de papel e acabava toda a escorrer pelos beiços (nem para refrescar a cabeça chegava). Hidratei-me muito pouco, porque não concebo parar para beber e nem abrandando o passo consigo (por favor, organize-se um workshop onde se ensine um gajo a beber do copo em movimento!). O isotónico, que tinha tentado beber no primeiro abastecimento, também tinha ficado colado à cara, sujeitando-me a ser atacado por abelhas, como no sonho uns dias antes (Parte 1). Resumindo: o calor e a falta de hidratação resultaram num último terço inesperadamente difícil, vendo a média a cair de 4:17 para 4:22/Km e sabendo que estava a um segundo de não conseguir o objectivo.

Apesar de estar a perder gás, fui sempre ultrapassando gente. Para ajudar à festa, juntaram-se ao percurso os maratonistas, que vinham despedaçados. A desgraça deles foi a minha sorte, que me senti regenerado por ver que havia quem estivesse em muito pior estado. Mesmo assim, a alegria do contraste durou pouco e as pernas, cada vez mais cansadas, pareciam que lutavam contra areias movediças… e, enquanto estava a entrar em modo-moleza, eis que me cagam na cabeça! Sim, um pássaro em viagem alivia-se e o brinde escorre-me ao lado do sobrolho, de nada me valendo a bandana que me ocupava a testa quase toda. “Boa merda… e agora tenho que limpar isto com a pouca água do copo no próximo abastecimento. Cago na cagadela? Bebo metade, molho os dedos, e limpo? Não acabes a beber água cagada também, concentra-se, sócio!” Decidi beber um golinho e limpar a retrete humana, mas até o fazer senti aquele dejecto – cimento a secar – a pesar-me na pele.

Resolvido o problema, que até deu para me distrair do cansaço, senti o centro da cidade a aproximar-se e a ouvir gente na rua a gritar pelos nomes que viam escritos nos dorsais. Às tantas passei por um corredor de populares e quando ouço “allez Jô-zê!” disparo como se estivesse a escassos metros da meta (até o Strava registou um pique a menos de 4:00/Km); uma imbecilidade, claro, mas certas coisas dão arrepios e deixamos de mandar nas pernas. Ainda faltavam 3 Km mas já sentia o fim perto, o “ainda falta tanto e já estou tão cansado!” pelas costas, e continuei ao ritmo que tinha estabelecido, seguro de que ia baixar aos 1:32:xx. As ruas foram estreitando, as curvas e contra-curvas mais frequentes, ao fundo a música e o relógio certinho, como o queria. Passei pela meta escangalhado e feliz. Quando parei, parou o vento e senti o fogo do sol na pele. Em Lisboa, no mesmo dia, mais milhares haviam de sofrer incomparavelmente mais nas maratonas Rock ‘n’ Roll, mas na Flandres ninguém esperava um dia daqueles.

 

Fiquei em 98.º na classificação oficial final, mas no quadro electrónico apareci em 93.º da geral. Como se vê, tudo belga à excepção de alguns países vizinhos. Não dei conta de ninguém que não fosse daquela zona.

 

Mano, mulher, filho, abracinhos, mostrar a medalha, festejar a marca (1:32:43), comer, beber. Depois, uma massagem que não teve o vigor das portuguesas, que costumam doer durante e aliviar depois; aquela foi “fofinha” mas também gostei. Os músculos recuperaram bem, não senti nenhuma dor a não ser a do cansaço e só os dedos dos pés apresentavam mais bolhas (longe de explodir) que o costume, o que também é costume.

 

Uma das medalhas mais bonitas da minha colecção

 

Fui ao hotel, tomei banho, descansei um bocado e voltei à praça para ver como estava o ambiente. As ruas estavam cheias de turistas mas também de corredores estropiados a deambular sem rumo. Pouco antes das 19:00, vi chegar os últimos grupos dos caminhantes da Maratona (havia “caminhada” também para essa distância, o que penso ser inédito). Na tenda dos comes-e-bebes troquei as minhas senhas e sentei-me a um canto. Apareceu uma sueca (cinquentona, atenção) que tinha viajado sozinha para fazer a Maratona. Falámos das coisas que falam os maluquinhos das corridas. Ela tinha achado o percurso um bocado monótono, que a ida até ao porto era muito a direito e com poucos motivos de interesse.

– E você, Joseph, o que achou das paisagens?
– Sabe, Annike, na verdade, a partir do momento em que o relógio começa a contar, os meus olhos não largam a nuca, ou ancas, de quem vai à minha frente. Entro num transe competitivo e hoje não foi excepção, tirando um momento em que, à saída da cidade, entrámos numa zona de pastagens e me cheirou a estrume. “Ah, sim, vaquinhas”, registei e voltei para o meu mundo. No fundo, para mim, correr em Bruges, Buenos Aires ou Boliqueime acaba por ser a mesma coisa…
– Como disse? Bolik…?
– Boliqueime, onde nasceu Aníbal Cavaco Silva.
– Ah, claro, o extraordinário estadista.
– Sim, Annike, esse mesmo.
– Admiro-o sobretudo pelo seu humanismo e capacidade de nunca se enganar. Na Suécia ainda está por nascer alguém tão… honesto – lamentou-se.

Abordámos a sua (do Professor) situação financeira dramática, brindámos à sua saúde, e despedimo-nos.

 

A parte mais “gourmet” da oferta. Nos outros pratos estavam duas fatias de pão, fiambre e cubos de queijo.

 

Para quem gosta de animações, aqui fica a da corrida. (Relembro que quem usa o Strava só tem que ir a https://www.relive.cc/ e subscrever o serviço para uma ligação ao ficheiro ser enviada para o e-mail uma hora depois de descarregar o treino na plataforma. É de borla e é engraçado!)

 

 

 

Percurso e Altimetria

 

Mais e Menos

(+) Para primeira prova, esteve perto da perfeição. Havia muitas dezenas de voluntários no centro de recolha de dorsais, no bengaleiro, ao longo do percurso e até espalhados pela cidade com camisolas “Ask me!”, prestáveis para qualquer tipo de esclarecimento. A inovação (para mim, pelo menos, que nunca tinha visto) dos blocos de partida de escolha livre e o afunilamento antes do pórtico de saída também foi bem pensado. As bandas e o clima de festa à medida que nos aproximávamos do centro histórico da cidade abrilhantaram o dia.

(–) O preço foi um bocado puxado: 30 €, sem camisola; não houve diplomas digitais; os abastecimentos em copos de papel dificultaram a hidratação (mesmo que conseguisse não salpicar nada para fora, a quantidade seria sempre insuficiente) mas, se a razão é ambiental, nada a apontar.

 

Vencedores

Koen Naert (Roeselare), 1:05:07

Hilda Poelaert (Yves Gomezée), 1:33:09 (não encontrei nenhuma fotografia da corrida, por isso tive que ir ao Google sacar esta… não há nada como os fotógrafos portugueses)

Fotos: Organização; Jogging d’Automne de Bonne-Esperance; Manuel Baptista

 

6 Comments

  • João Lima says:

    Mais uma marca extraordinária! Muitos parabéns!

    E sim, não há qualquer problema não dormir bem na última noite, desde que as anteriores tenham sido boas. Aliás, os grandes campeões também pouco dormem na véspera dum grande evento e depois alcançam o que alcançam.

    Muito interessante essa técnica do afunilamento antes da partida.

    Quanto aos copos de papel, ensinaram-me uma técnica mas ainda não pude colocar em prática pois ainda não tornei a apanhar uma prova com eles. A técnica é apertar o copo, espalmando-o e ficando assim na ponta uma espécie de bico para se beber. Não sei se fui explícito.

    Um abraço a continuação de óptimas corridas

    • Baptista says:

      Obrigado, João!
      Epá que grande dica, essa do copo. Da próxima vez experimento, de certeza que vai ajudar. Por acaso fui parvo, porque os gajos autorizavam “bebidas pessoais” nos pontos de abastecimento, bastava ter deixado uma garrafa num deles (para o gel, a mais importante) mas na altura não me dei ao trabalho.
      Força para ti também, em descrescendo esta semana, para explodires na altura certa! 🙂
      Abraço

  • Muitos parabéns … RP não é todos os dias. E gostei muito do relato divertido … aquele passaroco que te acertou, além de boa pontaria não gosta de tugas 🙂 Aquele abraço

    • Baptista says:

      Obrigado, Carlos!
      Ainda estou numa fase inicial, por isso eles (os RP) ainda vão acontecendo com frequência 🙂
      Que me lembre, foi a primeira vez que um cabrãozinho dum pássaro me cagou em cima, e logo num dia daqueles… eheh
      Forte abraço e uma semana tranquila!

  • Parabéns pelo record e muito bom post! Muito bom o episodio da cagadelagate ahah

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