Great Bruges Marathon (21.1 Km) (Parte 1)

 

 

Desde há algum tempo que a vontade de visitar qualquer sítio cresce ou esvai-se no momento em que consulto o calendário de corridas. Passagem de ano em Nova Iorque? Não me apetece, tenho uma procissão importante em Lisboa. Caminha em Novembro? Demasiado longe, mas em Junho não posso perder aquele pôr do sol maravilhoso. Como há muita oferta por esse mundo fora, alternativas não faltam e torna-se fácil agradar ao grego e à troiana (o greco-troianozinho vai para onde o levam). Foi com esta linha de raciocínio que planeei uma visita ao meu irmão e sobrinhos.

Não sei se na Bélgica, como cá, os eventos de cours à pied estão em expansão, mas o calendário de provas é bem servido. O país é pequeno, por isso bastava escolher a que mais agradasse e conjugar esse fim-de-semana com bilhetes de avião baratinhos. Na altura estava indeciso entre a distância (21.1 ou 42.2 Kms), escolha que me foi facilitada com a lesão no pescoço na fase crucial da preparação para a distância maior. Tirando as provas com pouca informação disponível ou em flamengo (que pareciam querer afastar tanto os francófonos como povos menores, intervencionados pelo FMI), listei três candidatas:

  • 17 de Setembro: Meia Maratona de Nivelles (uma pequena vila nas redondezas de Bruxelas)
  • 1 de Outubro: Meia e Maratona de Bruxelas
  • 15 de Outubro: Meia e Maratona de Bruges

Quando olhei para a altimetria e percebi que parte do percurso era em terra batida, afastei-me de Nivelles. Quanto a Bruxelas, de fácil acesso, desagradava-me a poluição e possível confusão, para além de um percurso com algumas subidas (para primeira Maratona, assustava-me). Restava Bruges, cidade histórica, limpa, plana, fresca e estreante na organização de um evento de maior dimensão a partir do seu centro. A ideia fermentou em poucos dias e logo comecei a preparação (atrasada) para a Maratona-mais-tarde-Meia, enquanto anunciava à esposa com pompa e circunstância o privilégio de uma visita à medieval Bruges. “Não foste já lá?”, perguntou. “Sim, querida, mas não me importo de ir outra vez. É fascinante.” (na verdade, tinha lá estado com dez anos e, se alguma coisa me fascinou, foi uma gaufre au chocolat que os meus pais me meteram nas mãos para não os chatear enquanto passeavam).

Cheguei a Bruxelas com os treinos e ritmos em dia, a sentir-me em plena forma. Dois dias antes da prova, tive o prazer de fazer uma corrida muito leve num dos grandes parques naturais nos arredores da cidade. Em linha recta, fiz 2.5 Kms para lá e para cá. O caminho era largo e estava seco, como gosto.

 

O “Arboretum Tervuren” cobre 100 hectares e contém mais de 400 tipos de árvores.

 

Há três meses que não fazia uma prova e há quatro e meio que não competia na distância, por isso estava esfomeado. Não sou de ficar nervoso (correr é fácil; marcar um penalti, isso sim, meteria medo), mas o subconsciente devia estar um boocado apanhado, porque tive duas noites seguidas de sonhos intensos. Na terceira, e última, não sonhei, porque não dormi quase nada e não deu tempo para aparvalhar…

1.º sonho (comédia): Chego cedo de mais na manhã da prova e deixo-me relaxar tanto que acabo por me atrasar nos preparativos. As meias tinham encolhido e não entram, atrapalho-me com os buracos da camisola de alças, o aquecimento é feito à pressa, o GPS do relógio não apanha rede, há lama na rua, o percurso está mal sinalizado e escurece de repente; há corredores a deslocarem-se em várias direcções, mas todos eles parecem confiantes nas decisões que tomam; pergunto-lhes por onde seguir mas não têm rosto; perco-me e acabo a deambular num jardim de uma casa particular.

2.º sonho (terror/suspense): Estou num banco de jardim, tranquilamente, algumas horas antes da corrida, a falar com dois amigos – um deles de infância, o outro mais afastado (mas que veio parar ao sonho porque descobri há pouco tempo que tinha corrido umas maratonas). Enquanto separo um gel do outro, como se fossem dois iogurtes, o picotado defeituoso faz com que ambos se rasguem e fique com o mel a escorrer-me das mãos. Olho para eles, assombrado, a pensar “já me f***!”, mas eles começam a sacar de geis dos bolsos, vários, que tinham ali como se fosse a coisa mais natural do mundo. Entretanto, começam a aparecer abelhas, atraídas pelo gel e pelas sandes que trazia na mochila, forma-se uma nuvem espessa de bicharada à minha volta, sinto-me sufocado… e apago-me. Na cena seguinte, estou na rua à frente do prédio onde vivi em criança a dar uns toques na bola com o tal amigo. Olho para o relógio: seis da tarde. Sinto uma pancada forte no coração: “A CORRIDA! Não me lembro de nada! O que se passou? Eu não tive uma corrida?” “Sim, e correu bem, eheh”, com ar de gozo. Aparece a mãe dele: “Então Pedrinho, fartámo-nos de rir contigo a discutir bola com o marido da [não sei quem]”. O meu amigo: “Eu bem te disse para ires à casa de banho…” A mãe: “É normal não te lembrares de nada, deixa lá.” Insisti em perceber o que se tinha passado, mas falo em alhos e respondem-me em bugalhos. Não percebo porque estão a gozar comigo, se realmente corri e como correu. Acabo o sonho resignado à crueldade de não guardar nem uma imagem da prova.

(Só me consigo lembrar do segundo sonho com tanto pormenor porque foi extremamente límpido e escrevi tudo assim que acordei. A parte dos geis a rasgarem-se tem a ver com um par de iogurtes que vinham com defeito da fábrica e me tinham sujado há uns dias; a parte da não ida à casa de banho está ligada à preocupação constante em obrar antes das corridas. O resto não descodifico, mas talvez alguém com experiência em estudos paulocoelhistas me possa ajudar…)

Por falar em “obras” de casa de banho, a nutrição do dia anterior foi longe de ser a ideal (vicissitudes de estar longe de casa). Ao almoço, churrasco; ao jantar, secretos de porco preto, com o Olhanense 0-1 Benfica em quatro ecrãs a fazer de laxante. Chegado a casa, sentei-me e perdi peso, o que costuma dar sorte, mas a cereja no topo do bolo veio no dia seguinte, descendo escassos minutos antes do aquecimento – senti o perfume da glória.

Antes de partirmos, na Parte 2, de madrugada para Bruges (o que realmente interessa), deixo-vos com mais um momento de bajulice e publicidade gratuita a que já vos habituei: chama-se Colruyt e é, provavelmente, o melhor supermercado do mundo para comprar chocolates. “Seja rigoroso!”, pede Pedro Guerra, “quem é que lhe mandou dizer isso?”. Para não me chamarem mentiroso, documentei-me. Vejam o que trouxe para Portugal:

 

4.870 Kg de chocolate por 25.95 € (5.33 €/Kg)

A mercadoria a consumir nos próximos três meses, ao ritmo de 50 gr/dia. O açúcar também é necessário para o corpo, desde que em pequenas quantidades. Vou ser tão metódico a comer isto como nos ritmos dos treinos…

 

Até breve!

 

2 Comments

  • João Lima says:

    Não se faz! Estava todo entretido a ler quando dou de caras com um “Até breve!” 🙂

    Bom… esses sonhos davam bons enredos de filmes. Em especial o segundo.

    Um abraço e venha la deuxième partie (sei em francês, não em flamengo!)

    • Baptista says:

      Eheh a “tweede deel” (segundo o Google translate) está a sair da fábrica e chega antes do fim-de-semana, prometo 🙂
      Abraço!

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