59.º Grande Prémio de Natal

 

 

A viagem até à minha primeira corrida foi longa. Quando comecei a dar os primeiros passos, ainda na Coreia, estava longe dos meus planos inscrever-me numa prova, nem fazia a mais pequena ideia da oferta disponível. Por causa da televisão, “São Silvestre” dizia-me qualquer coisa e havia aquela corrida na Ponte 25 de Abril. De resto… São João das Lampas: uma procissão? Ultra Trail 50: um modelo da Range Rover? Montepio Run: uma corrida aos depósitos? Enfim, pouco sabia e tampouco me interessava.

“Eu gosto de correr por mim, descansadinho… para quê gente à minha volta?”

Pela mesmo altura, num fórum de Benfiquistas “doentes”, onde se discute até ao mais ínfimo pormenor a vida do clube, encontrei uma fonte de estímulo inesgotável no tópico “Running”, criado e alimentado por “maluquinhos da corrida”. Ali, partilhavam-se com igual pormenor e paixão dicas de treino, avaliavam-se calçado e acessórios, descreviam-se feitos na estrada e nos montes, aventuras intestinais, etc. Imergido nesse mundo, foi um passo até sentir alguma curiosidade em experimentar uma corrida. Desconfiado mas para não morrer estúpido, como se diz, deixei-me convencer e cedi aos avanços do Fragoso, até então um nick num fórum.

Acordei de madrugada. Estava frio e senti-me um bocado idiota, sozinho na auto-estrada, enquanto o resto do mundo dormia (mesmo assim saí com muita antecedência, porque sofro de atrasofobia). Nunca tinha visto o estacionamento do Colombo tão tranquilo. Equipei-me no carro e saí, a sentir-me nú, para uma volta pelo centro comercial, quase vazio. O primeiro atleta que detectei foi um senhor com mais de cinquenta anos, moreno, magro mas rijo, aerodinâmico, equipado à V. Setúbal. Aos poucos, foram aparecendo grupos de homens e mulheres com o kit às costas. Encontrei-me com o Fragoso e fomos aquecer para perto do local de partida, já com o sol a fazer-se sentir, agradável. Foi bom termos aquecido cedo, para ter tempo de reaquecer depois da luta para prender o dorsal (nunca tive destreza para trabalhinhos de ourives). Enquanto me encantava com tantas caras, música, aquecimento conjunto, mulheres apetecíveis em modo Primavera antecipada, fotógrafos e as câmaras, a coluna de gente foi engrossando e acabámos por ficar mais perto da cauda que da cabeça daquela massa humana.

O meu objectivo era acabar abaixo dos 44:11 feitos num treino uma semana antes. Naquela altura, por inexperiência e falta de conhecimento, fazia a maioria dos treinos em alta rotação, a tentar melhorar o tempo anterior – na semana que antecedeu a prova fiz três treinos de 10 Km a abrir, para ir “bem preparado” 🙂 – por isso dava-me por satisfeito se conseguisse superar esse registo, ou seja, algo abaixo de 4:25/Km.

O problema inicial foi começar a correr, porque havia muita gente à minha frente com objectivos diferentes; o resultado dos ziguezagues foi 5:03 ao Km 1. Talvez o trânsito tenha sido a minha sorte, porque se tivesse partido com caminho livre acho que me entusiasmava e estoirava cedo. Na altura, pensava que estava tudo estragado e lancei-me. O segundo quilómetro fiz a 4:23 e, daí até ao nono, sempre abaixo dos 4:20/Km. Por um lado, partir de trás transformou-me num predador voraz e as ultrapassagens constantes davam a sensação que, se a corrida fosse um pouco mais longa, ainda havia tempo para chegar às medalhas… por outro lado, tanta sofreguidão fez-me pensar que a coisa podia correr mal mais tarde.

Foi no momento em que comecei a sentir as pernas a pedirem tréguas, à entrada do Km 9, que entrou em cena a sorte de iniciante: a suave descida entre a rotunda do Saldanha, passando pelo Marquês e a acabar nos Restauradores. A corrida até aí tinha sido um salto para o desconhecido mundo do sub-4:20/Km e o seu fim uma incógnita. O empurrãozinho do percurso e o olhar para o relógio e ver o inacreditável “avg. pace 4:19” revitalizou-me e os últimos 2.000 metros foram os mais rápidos. Com a música e os insufláveis lá ao fundo, dei o resto do pouco que restava, e cortei a meta feliz (e exausto) com o tempo de 42:53.

O meu amigo Fragoso chegou pouco depois, partilhámos as incidências da corrida e… até um dia. Podia ter sido um “a ver se combinamos qualquer coisa para breve…” (e a coisa nunca acontece), mas chegado a casa já estava em pulgas para a São Silvestre de Lisboa. O bicho tinha pegado.

 

Percurso e Altimetria

 

Mais e Menos

(+) Como era a primeira corrida, não sabia o que era uma coisa bem ou mal organizada. Do que me lembro, parece-me que tudo correu bem. As águas estavam fresquinhas (pudera) e na meta gostei dos brindes, fruta e amostras. Destaco também os entreténs durante o percurso, com acrobatas pendurados em viadutos e outras coisas memoráveis que entretanto se me apagaram. Boa iniciativa, a de se poder viajar de metro sem pagar mediante apresentação do dorsal.

(–) Por não os conhecer, demorei três semanas (até à São Silvestre de Lisboa) para pensar no jeito que davam blocos de partida. No dia em que aparecerem, podem rebaptizar a corrida para Grande Prémio dos Recordes (por outro lado, também percebo a natureza festiva do evento). Outra coisa que dava jeito era o bengaleiro. Como não tinha bolsos, corri com a chave do carro na mão, com A Amiga Olga a gritar “a chave! a chave!” e o rapaz do gongo dourado no meu encalce (a chegada ficar longe da partida complica um pouco, eu sei).

 

Vencedores

Dulce Félix (SL Benfica), 33:15

Hélio Gomes (Sporting CP), 28:41

 

Fotos: Organização; Correr Lisboa

4 Comments

  • João Lima says:

    Para primeira prova logo um tempo desses… 🙂

    Esta corrida foi muito especial para mm pois andei 10 anos a lutar para sub50 e finalmente consegui-o aqui e por boa margem (48.42, entretanto já melhorados para 48.19)

    Um abraço e boas corridas!

    • Baptista says:

      Na altura também fiquei surpreendido, mas só quando vi as classificações, porque o tempo oficial tinha sido 45:36…

      Lembro-me de na altura ter lido o teu relato e de ter ficado contente pela tua vitória! Foi uma manhã muito boa para correr.

      Abraço e boa preparação!

  • N. says:

    Que excelente tempo! Correr de trás para a frente é uma excelente estratégia, mesmo que na altura não tivesse sido planeada.
    Curiosamente estive hoje a ler o meu relato desta prova e logo a seguir vim aqui ter e fiquei muito baralhado no tempo porque a prova já foi em Dezembro do ano passado! LOL
    Abraço!

    • Baptista says:

      É verdade, de trás para a frente é muito bom, um gajo sente-se insaciável e nem tem tempo de pensar em coisas más. Numa próxima vez chego-me mais à frente na partida, mas não mudava nada do que aconteceu naquele dia.

      Espero que este “lag” no relato não faça com que alguém julgue que a prova já passou… por isso cá vai:

      — próximo Grande Prémio de Natal: 10/12/2017 —

      Abraço!

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