Atleta acamado

 

Sugestão de apresentação

 

Tenho andado muito certinho nos treinos: ele é aquecimento, ele é arrefecimento, ele é fazer o treino lento ao ritmo estabelecido, ele é respeitar os dias de descanso, ele é ouvir o corpo, como agora se diz… que alguma tinha que acontecer. Estava no ginásio, a fazer as últimas repetições da última série do último exercício de peito (deitado de costas, a levantar os halteres) quando senti um pequeno desconforto nas costas e pescoço – era aquele ranger normal, como tantas vezes acontece quando já estou cansado e a carga é alguma. Tranquilamente voltei para casa, comi, e sentei-me a ver o futebol, sossegado.

Ao intervalo, senti uma dor aguda no pescoço quando me levantei. “Não há-de ser nada, isto passa.” Quando o jogo acabou, já não conseguia mexer o pescoço, só os olhos. Qualquer movimento dos músculos (para a frente, para a trás e para os lados) parava no instante em que o começava, porque a dor o impossibilitava. “Boa merda. Vou-me deitar e amanhã estou melhor.” Mas como deitar-me sem mexer o pescoço? Demorei uns bons minutos, ajoelhado na cama, a pensar como passar para a horizontal. Um acto tão simples como deitar-me num colchão tornou-se um problema geométrico sem solução aparente e qualquer erro de cálculo punível com dores insuportáveis. E se houvesse um terramoto? E se me desse uma caganeira? E se aparecesse um ladrão que me abanasse a cabeça até eu lhe entregar as dezoito barras de ouro escondidas na última gaveta da mesinha de cabeceira? A ausência destes problemas ainda mais graves não me consolou. Sentia-me rijo como pedra do peito para cima (em baixo, tudo murcho), mas quando ganhei coragem e me encostei à almofada a gravidade fez cair o pescoço, numa viagem aterradora de um segundo sem fim.

Deitado e acamado, era altura de dormir, mas a fogueira de dores à volta do pescoço continuava e já sentia o ombro apanhado. Custou-me adormecer, acordei várias vezes a gemer e às 5:00 decidi ir às urgências. Mas, ir como, se só conseguia mexer as pernas e os braços? Num processo lento e doloroso, consegui virar a cabeça e o corpo até ficar de bruços, juntar os joelhos ao peito (sempre com a cabeça no mesmo sítio) e, lentamente, fazer uma flexão, com a cabeça a subir, pendurada. Pus uma camisa, porque uma t-shirt era impossível, e conduzi, sei lá eu como, até às urgências.

O médico estava com bastante sono e mal disposto, mas teve a amabilidade de me atender, pelo que lhe agradeço o jeito. Depois, noutra sala, ao som de Cai Neve em Nova Iorque (a tocar no Youtube de um dos computadores), um enfermeiro alegre deu-me uma pica no rabo (ele quis fugir à seringa mas não estava em condições de resistir) para me aliviar as dores. Alguns minutos depois senti-me ligeiramente melhor. Depois, receitaram-me umas coisas, aviei a receita e comecei a tomar a medicação.

Para quem adora doenças e remédios, aqui fica o que estou a tomar depois do pequeno-almoço e jantar:

  • anti-inflamatório Sodolac 400 mg (princípio activo “Etodolac”) em cápsula
  • relaxante muscular Relmus (princípio activo “Tiocolquicosido”) em comprimido orodispersível

 

Doutor… apetecia-me tomar algo… bom…

 

Foi na madrugada do dia 9 de Setembro que fui ao hospital. Passados dois dias, continuo a 50%: não me consigo baixar para apanhar coisas do chão, não faço esforços em geral e de manhã, ao acordar, ainda me sinto “preso” à cama. Ontem tinha um treino importantíssimo (30 Km) e não o pude fazer, o que me deixa preocupado porque no fim do mês tenho outro de 35 Km e, depois desse, as duas semanas de abrandamento até à prova. Os treinos longos e quilometragem em geral já era baixa; com este contratempo, começo a ficar preocupado, porque nem sei quando vou poder voltar a fazer um treino puxado como deve ser (não quero forçar o recomeço sob pena de lixar tudo). Começo a equacionar fazer a “Meia” em vez da Maratona de Bruges e deixar a Maratona para outra altura (Sevilha?), mas tenho a esperança de recuperar a tempo e, com uns ajustes no plano de treino, fazer os 42.2 Km com a confiança que tinha antes desta lesão parva. Atropelado a correr, como o Carlos Lopes a quinze dias dos Jogos Olímpicos, era de homem; esta coisa de me aleijar no ginásio, foi claramente pandeleiragem.

 

4 Comments

  • João Lima says:

    Cuidado com os relaxantes musculares que afectam a forma.
    O melhor remédio, fala quem já passou por isso, é um osteopatá que te ponha tudo no sítio.
    Força para umá boa recuperação!!!
    Um abraço

    • Baptista says:

      Excelente alerta. Lembro-me do teu último susto e o efeito do relaxanta muscular no treino, mas ainda não tinha projectado esse efeito para o meu caso 🙁 Neste momento já estou quase bom, falta o “quase” porque ainda hoje num pequeno jogging experimental atrás da criança vi que ainda sinto a junção entre o ombro e o pescoço com o balançar do braço esquerdo.
      Osteopata também me ocorreu na altura, não fui porque não conheço nenhum e o preço também me intimidou. Eles conseguem meter a coisa no sítio numa sessão? Ou depende da lesão…?
      Seja como for, vou cortar com o relaxante muscular amanhã.
      Abraço!

  • Então na recta final da preparação aparece uma “pieguice”?
    Escuta os conselhos do João Lima e vais ver, em poucos dias recuperas disso.
    Ok, muito provavelmente a restante preparação terá de ser reformulada, mas acredito que a Maratona não esteja em risco.

    Boa recuperação e que regresses aos treinos em breve!

  • Baptista says:

    É verdade, e das chatas, que com esta impressão até posso fazer aqueles treinos lentos mas os “a sério” têm que esperar…

    Alguma reformulação terei que fazer, infelizmente. O plano de treino é económico (preguiçoso) e está na fase crucial, por isso um contratempo destes deixa tudo um bocado em causa… mas vamos ver!

    Força para ti também! 🙂

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