9.ª São Silvestre de Lisboa

 

 

No meu imaginário de adolescente, “São Silvestre” era sinónimo de uma lembrança vaga do último dia de cada ano: a reportagem de uma corrida nocturna, com milhares de participantes e as palavras da Fernanda Ribeiro, a vencedora, a fechar a peça. É certo que a São Silvestre do Porto é a prova de 10 Km com maior número de participantes no país e a Volta à Cidade do Funchal a mais antiga, com a primeira edição em 1958. Mas foi em São Paulo que se correu pela primeira vez, em 1925, em honra do santo, e hoje o evento faz parte do guia turístico da cidade. A distância da prova, inicialmente de 6.2 Km, foi aumentando gradualmente ao longo das décadas até se fixar nos 15 Km em 1991, enquanto as São Silvestres portuguesas mais antigas pararam de crescer aos 10 Km. No Brasil, Rosa Mota ganhou seis vezes consecutivas (1981-86), feito pouco provável de ser igualado; em 1982 e 1984, juntou-se-lhe Carlos Lopes; Aurora Cunha venceu em 1988; Manuel Faria, a preto e branco, bisou em 1956-57. Achei interessante o apontamento histórico, por ficar bem não esquecer outras figuras de relevo do atletismo quando se escreve sobre os feitos de José Baptista nesta emblemática corrida.

(risos, aplausos; desce a cortina; sobe a cortina)

O baptismo no Grande Prémio de Natal deu-me sensações tão boas que, ao contrário do planeado, voltei a Lisboa volvidas três semanas. Numa madrugada muito fria e com algum vento, mal dormido mas cheio de força, meti-me no comboio e fui ter com os meus amigos corredores Fragoso e Lino, gente mais batida que eu nestas andanças, para conhecer a São Silvestre de Lisboa.

Depois dos 42:53 na primeira prova de 10 Km, sentia-me pronto para mais e melhor. Afinal de contas, ia partir do bloco “sub-45 minutos” e deixar para trás todo aquele “trânsito” que me tinha emperrado no primeiro quilómetro na estreia. Ainda por cima, a prova começava e acabava no Rossio, com uma ida para os lados de Alcântara, em terreno plano. Isto pensava eu, inocentemente, porque por falta de atenção não tinha reparado num pormenor importante: sim, a corrida começava e acabava nos Restauradores, mas os Restauradores eram também ponto de partida para uma subida de inclinação crescente durante 1.500 metros até ao Marquês de Pombal, ao Km 7. Mesmo alertado pelos colegas para essa dificuldade acrescida, decidi não mudar a estratégia e tentar manter-me nos 4:17/Km (ritmo da corrida anterior) desde o princípio e no fim, se possível, dar ao pedal para fazer melhor que na estreia. Afinal, tal como há vida para lá da troika, também haveria vida (depois de tempos de argrura) para lá dos Restauradores.

Se, no Grande Prémio de Natal, a partida tinha sido um serpentear, apressado, por adeptos em festa amontoados nos acessos do Estádio da Luz, aqui vi-me no meio de uma largada de touros em Pamplona: todos a galope, touros ou homens, tanto faz, porque corriam na mesma direcção. Não havia risota nem selfies, só respiração e a estrada a estremecer. Intimidado, no meio daquela massa humana em movimento, esqueci o ritmo e segui com eles até a nuvem se dissipar um pouco e ter espaço para reflectir. Constatei que tinha começado demasiado rápido, a 4:13/Km ao fim do Km 3, mas tentei manter a toada para perder terreno para o relógio o mais lentamente possível.

Ao fim do Km 7 estava como queria (4:17/Km), mas manter a média era impossível perante a exigência do que aí vinha: uma subida íngreme, cruel, sem um metro que fosse de descanso, que se eternizou por me apanhar desgastado, condição partilhada por todos. Curiosamente, apesar do quilómetro mais lento (4:38) na parte mais complicada, foi nessa altura que deixei mais gente para trás. Já no Marquês, a entrar no último terço da rotunda, senti o centro de gravidade do corpo a mudar, como num avião que vira no ar para se alinhar com a pista (neste caso, a meta) e as pernas a acelerarem, apesar do cansaço. Em solavancos de velocidade sempre que me lembrava que “está quase… e é a descer… dá-lhe!”, consegui acabar com o meu melhor quilómetro em corrida até hoje (3:51), mas falhei o recorde pessoal por seis segundos, acabando com 42:59. Mesmo assim, dada a inesperada dificuldade do percurso, senti-me como se o tivesse trucidado.

Esta corrida teve dois “extras” engraçados. Primeiro, deu continuidade ao desafio “Homens vs. Mulheres”, uma iniciativa original em que o grupo de elite das mulheres parte alguns minutos antes do grupo de elite dos homens (a diferença entre o melhor tempo masculino e feminino da edição anterior), para um combate mais equilibrado. Esta edição foi ganha pelas mulheres, como se pode ver nas fotos em baixo, com a Jéssica Augusto, vencedora feminina, a esperar o Hermano Ferreira, primeiro classificado masculino. A outra competição dentro da competição foi a atribuição de um prémio para o atleta que registasse o melhor tempo no último quilómetro da prova. Talvez por isso eu tenha ultrapassado tanta gente na subida ao Marquês e, depois, a descer para a meta, tenha visto tantos “foguetes” a passarem por mim… O mais rápido deles (com quem não me cruzei porque ficou em 6.º da geral), foi o Emanuel Rolim (SL Benfica), com 2:26 no Km 10.

 

Percurso e Altimetria

 

Mais e Menos

(+) Organizada pela HMS Sports, só há coisas boas a dizer. A começar pela camisola técnica, de manga comprida, que pintou de azul claro o pelotão, adequada ao frio que se fez sentir e muito confortável. Dada a acrescida dificuldade em assegurar o bom funcionamento dos serviços numa prova onde participaram mais de 6000 atletas na corrida de 10 Km, tudo correu sem sobressaltos, desde o bengaleiro, organização dos blocos de partida, distribuição dos abastecimentos e entrega generosa de comida no final.

(–) Nada a assinalar, se ignorarmos a falta de entusiasmo dos lisboetas em relação a uma prova realizada num Sábado de manhã, recheada de atletas de topo e tantos corredores.

 

Vencedores

Hermano Ferreira (SL Benfica), 30:10

Jessica Augusto (Sporting CP), 33:07

Fotos: Gustavo Figueiredo; Walter Branco

 

4 Comments

  • João Lima says:

    Atendendo ao percurso, estes 42.59 valem mais do que os 42.53 do Natal, não menosprezando.
    Aquela subida, não sendo muito inclinada, como é comprida vai mordendo muito.

    Excepcionalmente, este ano foi de manhã.

    Um abraço e boas corridas! 🙂

    • Baptista says:

      Também acho que sim, são percursos bastante distintos.

      Nem me tinha ocorrido o pormenor da SS de Lisboa também ser normalmente à noite. Assim, vai dar para acordar com calma e correr às horas que gosto mais.

      Força nas pernas, abraço!

  • M. a Asmática says:

    Fiz em 2015 (à noite) e também fiquei muito contente com a camisola, manga comprida verde da Asics, a manga comprida em Dezembro fez todo o sentido!
    Quanto à subida… bom eu queixo-me bem mais, aliás porque os meus tempos comparados com os teus, são de brincar… mas na minha opinião de não profissional, aquela subida já perto do fim só serve para desanimar e mói, mói muito.
    Este ano fazes outra vez, já vais mentalizado da subida e vais baixar dos 42m ihihih

    • Baptista says:

      É a minha camisola preferida, até agora, tanto pelo tecido como pela forma.

      Quanto a subidas, custa a todos, lentos ou rápidos… até o Hermano Ferreira se queixou, na entrevista depois da corrida 🙂

      Adorava poder baixar dos 42m, talvez seja possível. À noite o organismo (pelo menos o meu) está mais activo e menos sobressaltado, por isso vamos ver…

      Boas corridas!

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