17.ª Meia Maratona de Incheon (Parte 2)

 

 

Voltando a Seul, uma semana antes da prova, dia em que recebi uma encomenda cheia de coisas boas…

Ao contrário do que acontece cá, o kit do atleta foi enviado por correio. Registado. Com direito a telefonema do estafeta para saber se estava alguém em casa ou se devia passar mais tarde. Um luxo. Lá dentro, para além das coisas do costume e outras que não são surpresa (o dorsal, o chip, de prender aos atacadores do ténis, a camisola técnica, cremes pré- e pós-corrida e alguns panfletos), havia duas coisas que nunca antes tinha recebido: uma revista com o programa do evento e calções a acompanhar a camisola.

 

Os calções, de recorte clássico e entradas laterais, são leves e confortáveis e os meus preferidos para treinar quando não preciso de bolsos.

A camisola, muito pesada, faz um excelente pano de cozinha se lhe cortarmos as mangas.

O dorsal, com o patrocínio do Banco Shinhan e da produtora de aço POSCO. A verde, 하프 (“há-pe”) é um anglicismo (“half”) que significa “metade”, ou “Meia”.

A revista rivaliza com a Vogue na quantidade de publicidade, para além de muitas páginas a elogiar governantes locais de gravata, a sorrir.

Este “código de barras” é a lista de meia-maratonistas inscritos. Cada nome é composto por um apelido (uma sílaba) e um nome próprio (duas sílabas em 99% dos casos; raramente, uma ou três), como por exemplo, Park Ji-sung, ou Kim Jong-eun. À direita, na página seguinte, estão os estrangeiros da Meia Maratona, com os seus nomes compridos que só servem para gastar papel. A prova de 10 Km e 5 Km teve muito mais participantes (muitos deles caminhando).

 

Na semana anterior, comecei a acompanhar a previsão do tempo. A corrida estava marcada para as 9:00 do dia 26 de Março, por isso o pior que podia acontecer era estar demasiado frio ou chuva (pouco provável). Tinha trazido a camisola da São Silvestre de Lisboa de 2016, de manga comprida, não fosse o diabo tecê-las. Como as teceu (e que tecelagem!), decidi logo que era essa a escolhida. Foi uma boa escolha, porque não senti nem frio, nem calor, durante toda a prova. Com a outra, acho que assava o tronco e costas e os braços congelavam. É revelador não ter visto quase ninguém com ela vestida.

No dia anterior à corrida, tinha dormido pouco e estava ansioso por me deitar cedo e recuperar as energias mas, como de costume, não foi assim que aconteceu. Dormi menos de seis horas, mas acordei excitado e saí de casa com muita antecedência, para fazer tudo nas calmas, incluindo comer algo leve pelo caminho. Estava nublado, escuro e ventoso, pouco acima dos 0ºC. A um Domingo, àquela hora e com aquelas condições, só se viam almas depenadas a vaguear nas ruas. No primeiro metro, idem… mas no segundo, na linha certa, a caminho de Incheon-Munhak, começaram a entrar a cada estação, em grupos, rostos sonolentos mas alegres, as mochilas, os fatos-de-treino, os ténis de corrida. A caminho do estádio comecei a ficar preocupado, porque o pequeno-almoço já lá ia e pelo caminho não tinha encontrado nenhum sítio aberto onde pudesse comprar algo a não ser batatas fritas de pacote, chocolates e outras coisas pouco recomendáveis. À minha volta, vendiam-se sopas quentes, espetadas de pasteis de peixe picantes, tudo coisas que conhecia mas não queria comer. Acabei por encontrar um quiosque onde comi uma salsicha com sabor a delícias do mar que parecia plástico, à pressa, só para não correr com fome. Tanta antecedência a sair de casa… e tão pouca antecipação ao combustível do corpo!

Havia tendas de pano montadas à porta do estádio para cada sexo a servir de vestiário improvisado. Lá dentro, para além do calor devido à concentração de gente, não se podia respirar com o cheiro a menta dos cremes que a “chinesada” esfregava freneticamente pelas pernas. Quando saí daquele forno, trajado para correr, senti um arrepio, mas não há frio que não se domine nestas alturas. Dentro do estádio, havia bandas a tocar, exibições de taekwondo e discursos de gente importantíssima mas desconhecida minha, tudo isto sob o olhar atento de polícias armados até aos dentes a circular em pares, como nos aeroportos. No relvado e na pista, faziam-se os últimos exercícios de aquecimento.

Lá como cá, e não havendo blocos de partida, houve muita lesma que se posicionou lá à frente. O espírito coreano é mais competitivo que o nosso (em todas as áreas, incluindo esta) e seria uma mancha na virilidade de um homem apresentar-se modesto, lá ao fundo, no sítio correspondente à sua condição física, pelo que fui sendo transferido lá para trás por braços ambiciosos. O primeiro quilómetro evaporou-se a ultrapassar os pernetas de elite. O corredor da saída do estádio era estreito para tanta gente, e nas imediações o trânsito só estava cortado num sentido (os carros parados, a cuspir fumo em filas longas, como é hábito), por isso ainda demorei algum tempo até me movimentar como queria.

 

Depois dos apertos iniciais, eis quatro faixas de uma avenida a perder de vista.

 

À conversa com um velhote durante o aquecimento, foi-me dito que o percurso ia ser completamente plano. “Nem uma subidazinha?” “Nada, é um corredor.” Na verdade, não foi bem assim. Do estádio até esse tal extenso “corredor”, havia uma descida íngreme; depois, dentro da avenida, havia um túnel; finalmente, uma ponte curvada. Como tudo na Coreia é feito em grande escala, foram duras tanto as subidas para sair do túnel como até ao meio da ponte. De resto, após encontrar um ritmo no limite do confortável, um pouco abaixo dos 4:30/Km, deixei-me embalar pela paisagem estática da estrada, com os riscos no chão e a cadência das árvores a ajudar à sensação de movimento.

 

Dentro do túnel, o GPS perdeu o contacto e temi o pior. Felizmente, quando emergi, desorientado, à superfície, (o que nos fazem as tecnologias!), voltou a “pegar” e sosseguei.

A vista da ponte, com mais um complexo residencial em construção. Enquanto houver uma nesga de terra para preencher, não há descanso.

 

Quatro quenianos, dois japoneses, um chinês e 63 coreanos tinham partido dois minutos antes dos comuns mortais, evitando serem engolidos pelo gangue dos pernetas na zona da partida. Para evitar que o dinheiro dos prémios fosse quase todo para o estrangeiro, havia prémios do 1.º ao 6.º lugar nas categorias “geral” e “doméstica”. Estava tudo explicado na revista, mas naquela altura estava a pensar em tudo menos nisso… quando vejo, pelo canto do olho, uma sombra alta e escura a aproximar-se: era o primeiro dos quatro africanos. Esse vi desfocado e nem tive tempo de observar, mas os outros três, no seu encalce, eram cópias com menos um ou dois cavalos de motor. Se correr, no lugar de ser superação individual (para quase todos nós), fosse uma competição pelo ouro, olhos nos olhos com os melhores, a visão daquelas máquinas perfeitas em movimento era razão para sair da estrada e chamar um táxi. Pelo contrário, é um prazer para mim, nós, javalis aleijados, girafas descoordenadas, elefantes corcundas, apreciar aquele grupo de gazelas. Atrás destas, seguia o mini-pelotão de asiáticos de alta competição, mais “humanos” e menos graciosos; não mordiam os calcanhares aos quenianos, mas ninguém mordia os deles.

A propósito, um aparte sobre a magia da corrida: a não ser que sejamos, meia-maratonamente falando, o eritreu Zersenay Tadese (58:23) ou o Sr. Amílcar da mercearia (3:32:49), há sempre gente atrás e à nossa frente. Assim, podemos trabalhar para nos superarmos numa próxima oportunidade, tanto na competição connosco próprios, como para subir na classificação geral. Se, por exemplo, no futebol, a partir de uma certa idade se tem que pendurar as chuteiras, na corrida, mesmo esbranquiçados, enrugados, impotentes e incontinentes, não deixamos de ter espaço para fazer boa figura no nosso escalão. Podemos levar esta paixão pode ir até ao fim e acabar como os actores, de quem se diz morrerem no palco… mas nós na estrada (de preferência, entre corridas, durante o sono, com o quarto cheio de medalhas e boas recordações; não estava a pensar em atropelamentos fatais).

Voltando à corrida: depois do avistamento dos profissionais, as coisas continuaram de feição, sem peripécias a registar. O retorno não trouxe nada de novo, porque estava nublado e o sol não bateu nem deixou de bater de frente, nem o vento ajudou ou deixou de ajudar. A estrada continuava pouco povoada, com meia dúzia de corredores à minha frente exactamente ao meu ritmo. Voltei a subir e descer a ponte, a descer e subir o túnel, e quando cheguei ao Km 20 quem estava por perto já se tinha distanciado, para a frente ou para trás. Nessa altura, com uma subida difícil pela frente e uma autêntica parede que dava acesso às imediações do estádio, baixei o ritmo. Só arrebitei quando entrei no túnel do estádio e comecei a sonhar com ovações apoteóticas… mas sabia que, quando entrasse na pista e olhasse em redor, esperava-me um Belenenses-Tondela numa segunda-feira de chuva. Mesmo assim, estádio é estádio, e aqueles metros finais foram de grande satisfação. A velocidade média, que tinha andado pelos 4:25/Km durante a grande recta, desceu para 4:27/Km devido ao cansaço e subidas finais, acabando com 1:33:55, cerca de um minuto e meio mais rápido que a estreia na Meia Maratona no mês anterior. Cascais caiu em Incheon, que por sua vez caiu em Caminha.

 

Percurso e Altimetria

 

Mais e Menos

(+) A organização foi boa. Apesar dos milhares de participantes, não houve congestionamento nos bengaleiros nem nas casas de banho (do estádio). Os abastecimentos estiveram bem, mas algumas das águas, em vez de engarrafadas, estavam em copos de papel, em mesas baixas, o que obrigava a abrandar muito e algum equilibrismo. Experimentei também esponjas ensopadas em água para refrescar (“se estão aqui, é para usar”, pensei), mas com 6ºC congelei a nuca e o ombro (devia ser para os apanhados). No pós-corrida, entregaram-nos um saco com fruta e água, um pão com feijão doce e a medalha. Houve também massagens feitas por invisuais e aparelhos disponíveis para medir a tensão. O pormenor, uma semana antes, do kit entregue em casa, é muito bom, mas indispensável; apesar de vizinhas, de uma morada específica de Seul a outra em Incheon perde-se um dia (não é como dar um pulinho de Cascais a Algés). Uma palavra de apreço para os jovens voluntários que nos incentivavam ao longo do percurso. Para além dos que estavam nos abastecimentos, havia outros a fazer de pinos no meio da estrada e ajudaram quando as forças faltaram.

(–) A Coreia do Sul é dos países onde tudo se consegue à distância de um clique, mas para consultar o meu tempo e conseguir levantar o diploma foi um martírio: tive que criar uma conta num site complicadíssimo que dava constantemente “erro” para ter acesso a essas informações. A classificação geral também estava bem escondida, e os nomes mantidos anónimos por asteriscos (os atletas de elite não constavam). Depois de muitas calculações, cheguei à conclusão que fiquei em 117.º em 1882 (se todos os inscritos tiverem comparecido) e em 8.º no meu escalão (excluindo a elite). Espero que depois da reunificação das Coreias os historiadores possam ter acesso à classificação oficial da Meia Maratona de Incheon 🙂 Outro dos pontos negativos foi a falta de fotógrafos ao longo do percurso. Para além das fotos automáticas, para venda (baratas, por acaso), na linha da meta, vi só uma ou duas pessoas a tirar fotos com o telemóvel. Em Portugal, estamos muito melhor servidos de gente, amadora ou profissional, a documentar estes eventos.

 

Os selos vermelhos são os mesmos que se usam em documentos oficiais, como certidões de casamento, registos criminais, etc. Não havia a opção de gravar o diploma, só imprimi-lo (imagino que seja para evitar adulterações), por isso fiz um “print screen”. Se eu desaparecer por uns tempos, perguntem por mim aos serviços secretos coreanos.

Frente e verso da medalha de participação

 

Vencedores

Paul Kipkorir (QUÉNIA), 1:04:01

Kim Do-yeon (K-water), 1:17:22

Fotos: Incheon Ilbo

 

6 Comments

  • João Lima says:

    Mas que excelente continuação do artigo! É pena já ter acabado.
    Isto porque, além de muito bem escrito e com um humor muito particular e certeiro, mostra-mos a realidade dum país muito distante.
    Muito obrigado pela partilha!

    Uma pequena nota. Já houve em Portugal, pelo menos numa corrida, entrega do kit em casa. Estou a falar do Grande Prémio Fim da Europa (Sintra-Cabo da Roca).

    Essa praga dos pernetas de elite também existe na Coreia…

    Grande abraço

    • Baptista says:

      Olá João!

      Foi o artigo que mais me deu prazer, também por saber que é um mundo desconhecido para quase todos. Obrigado pelos elogios, acredita que me motiva para continuar com gosto redobrado 🙂

      Descobri esse GP Fim da Europa no teu calendário de corridas há algum tempo e fiquei apaixonado pelo cenário (já conheço, pelo menos parte dele, de carro, mas a correr é outra conversa). A experimentar em breve!

      Abração

  • Muito bom o(s) artigo(s) … é bom saber que afinal as nossas provas em Portugal não são tão mal organizadas como isso – se até na tão organizada Coreia do Sul (pensava eu) há pontos negativos básicos 😉 – nós tugas é que temos a mania de reclamar por tudo e por nada.
    De resto, obrigado pela partilha, parabéns pelo RP e boas corridas.
    Abraço

    • Baptista says:

      Olá, Carlos!

      Obrigado pela visita e pelo feedback positivo.

      É verdade, o pré-corrida (inscrição, pagamento) e o pós-corrida (classificações, diploma) em Portugal não oferece dificuldades. Ali, parecia que estava a validar o IRS… sem ajuda, acho que não conseguia. Por curiosidade, fui ver o site da Maratona de Seul e o estilo é o mesmo. Tanto uma como outra, apesar de “internacionais”, só traduzem uma pequena parte dos menus… que se lixem os 1% 🙂

      Parabéns pelo teu blogue, que vou passar a ter debaixo de olho. (Corres muito!)

      Abraço

      • Carlos Cardoso says:

        Olha que fiz a Maratona de Roma e a nível de complicações para nos inscrevermos, enviar certificados médicos, etc, foi uma complicação como nunca vi em lado nenhum. Em Portugal estamos bastante bem no que a organização de provas diz respeito.

        Eu neste momento não corro quase nada ;), mas isso vai mudar … quanto a ti, com tão poucos meses de corrida e já a fazer esses tempos … há aí muita margem para progressão … força nisso.

        Aquele abraço

        • Baptista says:

          Ui… atestados médicos “internacionais” também tem tudo para dar dores de cabeça! É bem verdade, aqui faz-se tudo sem entraves.

          Abrandaste mas o corpo lembra-se, é só dar o “kick” e volta tudo. Quanto a mim, não me imagino a correr muito mais que isto, mas pensava o mesmo há um ano atrás 🙂

          Abraço e bom regresso à forma

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