17.ª Meia Maratona de Incheon (Parte 1)

 

 

No dia 14 de Junho de 2002, Portugal despediu-se do Mundial de futebol contra a Coreia do Sul, que jogava em casa. Num jogo em que a ambas as selecções bastava um empate para passarem à fase seguinte, treinador e jogadores julgaram que as equipas se encaixariam no meio campo rumo a um empatezinho sem golos. Enganaram-se. Jisung Park, um jovem a despontar na selecção e que teria uma grande carreira pela frente, fez o 1-0 final e devolveu-nos à procedência. O jogo realizou-se no Estádio Incheon-Munhak, nos arredores de Seul. Em casa, antes de um exame de Introdução ao Direito, assisti a esse jogo de má memória, nesse país longínquo; mal podia imaginar que, quinze anos mais tarde, entraria nesse estádio a correr. Como muito pouca gente conhece a Coreia, e menos ainda lá participaram numa prova, vou fazer render o peixe. Não será uma sardinha para quatro, como no antigamente, mas uma sardinhada de duas partes.

 

Correr na Coreia

O clima na Coreia não é amigo do corredor. No Inverno, as temperaturas podem descer até aos -20ºC em Seul, mas o normal é situarem-se entre os 0ºC a -10ºC. O ar é muito seco, a pele estala e os lábios ficam gretados. Praticamente não neva, mas a ventania é quase constante, o que agrava a sensação de frio. Correr na rua está, por isso, fora de questão. Durante a Primavera, dá-se um fenómeno meteorológico que também desaconselha à corrida: as tempestades de poeira vindas da Mongólia. Os efeitos são parecidos à areia que por vezes nos chega de Marrocos, mas agravados pela poluição na China. No Verão, chove quase todos os dias e o ar é abafado. 28ºC com 80% de humidade é simplesmente insuportável. Nesse período do ano, nem nú e quietinho, à noite, se está bem. Correr, só 5 Km, com muita calma, e encharcado em suor. Restam as semanas de transição entre o Outono e o Inverno e, quando não sopra vento norte, a Primavera. (A propósito deste tema, posso já adiantar que a nossa Rosa Mota não é deste mundo quando se sai com isto. Para quem ainda não conhece este mini-documentário, é obrigatório puxar atrás e ver do princípio.) Com todas estas limitações, não admira que a maioria dos desportos mais populares se joguem em salas com ar condicionado: bilhar às três tabelas, golfe virtual, artes marciais… e até no beisebol, apesar de jogado ao ar livre, se vêem no Verão ventoinhas espalhadas pelos bancos onde os batedores se sentam à espera da sua vez. Mesmo assim, a corrida é um desporto apreciado e praticado por muitos.

 

Tradição maratonista

Juntamente com os japoneses, os atletas coreanos têm bons pergaminhos na longa distância. Os primeiros a conquistarem medalhas olímpicas na Maratona foram Sohn Kee-chung e Nam Sung-yong, nos Jogos de Berlim de 1936, numa altura em que o país estava ocupado pelo Japão. Como condição para competirem, foram obrigados a usar nomes japoneses (Son Kitei e Nan Shōryū, respectivamente). Nam Sung-yong conseguiu o bronze, com um tempo de 2:31:42, enquanto Sohn Kee-chung ganhou a prova com 2:29:19, recorde olímpico mas abaixo do seu melhor tempo (2:26:42), conseguido em Tóquio um ano antes, recorde absoluto que perdurou uma dúzia de anos até ser batido por outro coreano, Suh Yun-bok (treinado por Sohn Kee-chung), na Maratona de Boston de 1947, com 2:25:39.

 

Sohn Kee-chung (Son Kitei), Nam Sung-yong (Nan Shōryū) e Suh Yun-bok

 

Mais recentemente, nos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona, Hwang Yong-cho conseguiu a primeira medalha de ouro atribuída oficialmente a um atleta coreano na Maratona, com o tempo de 2:13:23 (quatro minutos mais lento que o recorde olímpico de Carlos Lopes de 1984, em Los Angeles). Nos Jogos seguintes, em Atlanta, Lee Bong-ju ganhou a medalha de prata com 2:12:39. Em 2000, quatro anos mais tarde, correu a “distância mítica” em 2:07:20, recorde absoluto entre maratonistas coreanos que perdura desde então.

 

Hwang Young-cho e Lee Bong-ju

 

Em relação às mulheres coreanas, ainda não chegaram ao pódio. Por outro lado, as japonesas levam duas medalhas de ouro, uma de prata e outra de bronze (uma medalha de atraso em relação ao Quénia, mas com mais primeiros lugares). O outro país asiático com uma medalha nesta prova é a China, com um bronze em 2008, “em casa”. De notar que a primeira Maratona feminina em Jogos Olímpicos, ganha pela norte-americana Joan Benoit, se realizou apenas em 1984, depois de uma luta prolongada contra quem considerava pouco recomendável as mulheres se sujeitarem a tamanha violência.

 

Preparação

Incheon é uma cidade portuária e é lá que se situa um dos aeroportos internacionais mais movimentados do mundo. Tem 3 milhões de habitantes e é uma das muitas cidades satélites que integram a Região Metropolitana de Seul, com quase 26 milhões de potenciais corredores. A Maratona de Seul, com o tracejado idêntico ao de 1988, realizava-se uma semana depois da “Meia” de Incheon. Descobri por acaso, quando um velhote que me viu a aquecer me interpelou. Não falava inglês, por isso a comunicação era quase impossível. Mesmo assim, ficámos ali uns vinte minutos a falar (?) de treinos, tempos, distâncias, estratégias de corrida, acessórios, etc. Até se deitou no chão a mostrar-me exercícios para fortalecer o tronco, o segredo para acabar abaixo das 3h00 e ver o meu nome no jornal. Depois da minha prova, era a vez de ele fazer a quarta Maratona… com 72 anos. Estava maravilhado por encontrar alguém com quem falar de corrida (imagino que em casa a mulher não ligue muito a essas coisas) e só foi pena não perceber 80% do que me estava a tentar dizer. Tudo isto aconteceu junto ao portão de uma pista de atletismo do complexo desportivo do Bucheon FC 1995, uma equipa de futebol com um estádio monumental em comparação ao futebol que pratica. Foi aí que me desloquei dia sim, dia não, ao princípio da tarde na esperança de sentir o calor do sol, para fazer os treinos de preparação.

 

Mapa do complexo desportivo (à esquerda, a pista aberta ao público; o estádio à direita)

A área envolvente faz lembrar um pouco o Jamor. A pista do estádio não é aberta ao público, mas à volta havia uma espécie de ciclovia (cada volta com 750 metros) mas estava sempre cheia de miudagem e velhotes sentados a fazer piqueniques.

Uma fotografia da pista de atletismo, que encontrei num blogue coreano, a retratar um grupo de maratonistas protestantes (cristãos, não são manifestantes da CGTP) a agradecer a Deus o treino acabado de realizar. À boa maneira deles, cobri as caras com bonequinhos fofinhos, como faz toda a gente, desde a menina mais doce e suave, até ao halterofilista encarcerado.

 

Foi aqui que fiz cinco treinos pré-corrida. O sexto, e último, foi feito quando dormi em casa dos sogros, que vivem perto de uma ciclovia quase infinita (mais de 20 Km, sem obstáculos, só de ida, para sul ou para leste).

 

No Outono, escolhendo a hora do dia ideal para calçar os ténis, é um prazer deslizar por entre a folhagem dourada.

Apesar da rivalidade entre ciclistas e peões, há espaço para todos. Nos meses mais quentes, a aproveitar a sombra dos viadutos, há velhotes bêbedos deitados em tapetes de verga a cantar uma espécie de fado, enquanto os sóbrios se entretêm com jogos de tabuleiro tradicionais.

 

A Meia Maratona de Incheon era a minha segunda participação nessa distância, pelo que estava relativamente tranquilo. Só tinha, no entanto, feito três treinos de 20 Km: um deles acidentalmente, cinco meses antes, quando me enganei no ponto do retorno num treino de 15 Km, e dois na Estrada do Guincho, perto de casa. Por outro lado, treinos de 15 Km tinham sido à média de um por semana. Correr a partir desse ponto ainda era, portanto, uma sensação especial.

Em breve, na Parte II, o kit do atleta, o dia da corrida e as impressões gerais. Até logo!

 

2 Comments

  • João Lima says:

    Venha a 2ª parte que este artigo está extremamente interessante!

    Desconhecia essas particularidades desse clima.

    Referes e bem que a primeira Maratona olímpica feminina foi em 1984 mas gosto sempre de realçar que a primeira Maratona oficial em campeonatos foi no Europeu de Atenas 1982, prova ganha por uma tal de… Rosa Mota 🙂
    A primeira oficial foi conquistada por uma portuguesa!

    Um abraço

    ps – Recordo-me bem desse jogo e da irreflectida atitude dum famoso jogador português…

  • Baptista says:

    Boa observação! É engraçado, que sabia isso e não relacionei uma data à outra… ainda por cima, com tão ilustre protagonista! Já agora, falhou-me mencionar que nesses JO de 1984, a nossa Rosa Mota dá um cheirinho do que está para vir, com a medalha de bronze.

    (Aquele Mundial foi um manancial de disparates… que miséria!)

    Abraço!

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