7.ª 20 Km da Marginal

 

 

Entre as boas marcas das “Meias” de Incheon (a próxima corrida nesta retrospectiva até à primeira prova) e Caminha, aconteceu um pequeno desastre. Até então, tudo tinham sido marchas triunfantes: entrava com ritmos superiores à zona de conforto e mantinha-os até ao fim, fazia o último quilómetro de cada prova ainda com oxigénio para acelerar, acabava as corridas com a segunda metade mais rápida que a primeira, enfim, o arrojo era recompensado com boas prestações. Até que… me espalhei nos 20 Km da Marginal. Apesar de ser a primeira prova com o estatuto “Vet. I” (primeiro escalão dos veteranos, normalmente entre os 35 a 39 ou 35 a 44 anos de idade), faltou-me juízo.

À data da corrida, tinha duas Meias Maratonas nas pernas, bem como três treinos recentes de 20 Km. Não se pode dizer que fosse um guru das longas distâncias, mas conhecia-as e já as tinha experimentado em competição. O treino mais puxado tinha sido a 4:45/Km e a melhor “Meia” a 4:27/Km, portanto sabia, em teoria, como pôr na balança a ambição de um lado e o bom senso do outro. A estratégia passava por controlar os impulsos e fazer os dois primeiros quilómetros com tranquilidade e só depois ir aumentando a velocidade. Na altura, nem estava a pensar em melhorar o ritmo da última Meia Maratona, porque essa tinha sido feita à fresquinha e em estrada quase plana, enquanto aqui já não estava frio nenhum às 9:30 e a Marginal tinha à minha espera cascas de banana untadas de vaselina em vários locais. O grande objectivo, que me parecia alcançável, quase modesto, era acabar com 1:29:xx. Para isso, teria que chegar à média dos 4:29/Km.

Apesar da ausência de blocos de partida, não senti a habitual ânsia dos atletas se chegarem à frente. Como ia com um amigo (que corre mais que eu) e ele foi andando para junto da linha de partida, juntei-me a ele. A buzina soou e dei por mim a correr com a segunda vaga (aquela que sucede à meia dúzia que, para acompanhar, só em sprint e durante 200 metros).  Fresco e parvo, galopei sobre a primeira série de cascas de banana, na subida do Gordinni. Ao Km 2, com a brilhante média de 4:10/Km, já pensava como tinha passado ao lado de uma grande carreira. Sentia-me bem, um pouco apreensivo porque só pararia em Belém, mas extremamente confiante. Direito como um garfo e de cabeça levantada, corria praticamente sozinho, pensando nas vicissitudes de um homem que sacode para trás o grosso do pelotão desde cedo.

Olhando para o registo do relógio, vejo agora que a fantasia acabou ao Km 7, mas na altura a média descia lentamente, fruto do avanço inicial. Começando a cair na realidade, tentava convencer-me de que ainda era possível fazer um grande tempo, bastando controlar o declínio e adiando ao máximo a queda do ritmo médio… mas faltava muita estrada. Sentia a temperatura a subir, as forças a esvaírem-se, o efeito refrescante das águas pela tromba abaixo pouco consolador e as pernas cada vez mais tremeliquentas. Ao Km 10 já estava bastante agoniado; penso que ajudaram certas coisas que comi na noite anterior para tentar estimular uma ida à casa de banho… que fracassou… e agora, depois da “bebedeira” inicial, sentia dentro do estômago um folar (algarvio, com ovos e tudo), em expansão, a alimentar-se da pouca força que me restava. Foi cansaço, foi enjoo, foi calor, foi o gel que parecia placebo, foi o cubo de marmelada nos abastecimentos que me escorregou das mãos, foi o Alto da Boa Viagem que quase me obrigou a andar, foi começar a ser ultrapassado pela direita e esquerda… fui eu e o início suicida.

É engraçado como os meus quilómetros mais lentos em prova até hoje foram os que mais me custaram fazer. Naquela manhã, três deles foram acima dos 5:00/Km. Correr também pode ser uma experiência dolorosa e traumatizante; naquela manhã foi. Os 4:02/Km, da primeira vez que olhei para o relógio, transfiguraram-se para 4:41/Km no final, com a segunda metade da corrida 10% mais lenta que a primeira. Acabei com decepcionantes 1:33:43. De positivo, retiro o facto de não ter desistido, apesar do estado pré-comatoso em que me encontrava. Congratulo-me por isso agora, porque na altura nem a cortar a meta senti alívio, antes ódio e o pensamento “correr, para quê?” Claro que, passado algumas horas e mais ou menos restabelecido, cresceu-me a vontade de voltar à Marginal e repetir a prova, mas desta vez a fazer as coisas com juízo. Acontecerá, com naturalidade e prazer, na próxima edição.

 

Percurso e Altimetria

 

Mais e menos

(+)  A Xistarca tem muita experiência neste tipo de eventos e esteve geralmente bem, desde a entrega do kit até aos serviços prestados no dia da prova.

(–) Ao mesmo tempo que se corriam os 20 Km, decorria a Estafeta Cascais-Oeiras-Lisboa (os mesmos 20 Km, divididos por equipas de quatro elementos), pelo que houve alguma confusão em certos locais. Havia também um gel previsto nos abastecimentos ao Km 15 que não vi ser distribuído. Pareceu-me que houve pouca animação, mas deve ter sido porque vinha mentalmente de rastos e vi tudo com lentes negras.

 

Vencedores

Paulo Guimarães (A Minha Corrida/Kalenji), 1:11:21

Danielle Sansonetti (Individual), 1:22:44

Fotos: Paulo Alfar; Fernanda Silva

2 Comments

  • João Lima says:

    É nas provas que não nos correm como queríamos que mais aprendemos.
    E estava muito calor nesse dia. Eu como fiz a estafeta, ainda deu para aguentar bem pois em 5 km não temos o desgaste pelo calor, mas em 20…

    A minha estafeta começou aos 15 e posso afirmar que me lembro de ter visto nas mesas o tal gel. Provavelmente não o viste mas havia.

    Quanto à animação… o deserto habitual do cinzentismo nacional.

    Um abraço

    • Baptista says:

      É bem verdade! Desde esse dia que um dos objectivos que traço para cada corrida (e que tento cumprir) é controlar a velocidade no princípio.

      Então afinal o gel estava lá mesmo e não reparei. Estou habituado a que me dêem tudo à mão (talvez tenha sido essa a “falha”) 🙂

      Numa prova em linha fica mais difícil esticar a animação, mas mesmo olhando para a corrida com lentes negras também a achei um bocado sepulcral…

      Bons treinos, um abraço!

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