JSF Estrada do Guincho 25 Km

 

Para quem nasceu nos anos 80, ver Portugal a ganhar competições europeias não era nada de extraordinário. Todas as sextas à noite, medíamos forças contra outros sete valorosos adversários (Espanha, França, País de Gales, Checoslováquia…) e ficávamos quase sempre bem classificados. Apresentados pelo charmoso poliglota Eládio Clímaco, falo, naturalmente, dos Jogos sem Fronteiras. Como, infelizmente, não se realizam desde 1999, tomei a liberdade de plagiar o logotipo (sem receio que o comentador da RTP me parta as pernas) para apresentar o último percurso que “inventei” quando me senti preparado para dar o salto dos treinos de 20 Km para 25 Km na preparação para a Maratona.

 

 

Vieram-me à cabeça os JSF porque este percurso está repleto de obstáculos. Não fazem parte aqueles que não têm graça nenhuma, como atravessar cruzamentos ou parar em semáforos (só uma passadeira com pouco movimento), mas sim aqueles que nos fazem rir quando tocam aos outros. É um desafio que requer resistência, sacrifício e, sobretudo, gostar de fazer coisas quase parvas em vez de ficar sossegado em casa a ler um livro. Como correr também tem um lado masoquista, esta aventura satisfaz as nossas necessidades. É também a antítese da passadeira de ginásio, porque vão sempre surgindo dificuldades novas.

 

Instruções

Começar no Km 0 da ciclovia, atravessar a rua em diagonal, entrar na pista do lado contrário, e descer na direcção da Baía de Cascais.

Dar meia-volta quando acaba a ciclovia, voltar ao ponto de partida, e continuar a correr na direcção do Guincho.

Seguir na ciclovia até ao fim (marca 10.25 Km), correr mais 250m a direito e voltar ao ponto de partida (Km 0).

 

Percurso e Altimetria

Isto é para ser feito à noite (a partir das 21:30, de preferência com o céu limpo) para evitar melanomas, e com vento forte (a partir dos 22 nós; consultar aqui) para refrescar as ideias.

 

Viagem

Kms 1-2: A aventura começa suavemente, com uma brisa a empurrar descida fora, rumo à baía, com restos de turistas nórdicas a passearem relaxadamente (recomendam-se mais agasalhos, mas nos seus países de origem esta brisa fresca convidaria a um churrasco e mergulhos no lago).

Kms 3-4: O retorno traz uma subida irregular, aos solavancos, e cria a ilusão de que a distância “para lá” é menor do que “para cá”. Quando se chega ao ponto inicial, já se está um bocado cansado e com dúvidas quanto aos 21 Km que faltam percorrer.

Kms 5-6: Descida agradável, mas começa a dança dos arbustos e o barulho da folhagem das árvores a indicar o que está para chegar. A humidade do mar entranha-se no corpo, que já está quente, mas sentem-se pequenos calafrios.

Kms 7-8: O cenário não muda; apenas o vento se intensifica. O mar é negro, o céu cinzento escuro, e a pista escurece e aclara na medida da proximidade dos postes de iluminação. Já não se vê ninguém na rua, a não ser sombras repentinas de animais rastejantes que nos gelam o sangue (ratos, raposas e outros bichos que não sei identificar, porque só conheço os dos livros das crianças) e um ou outro carro a passar, por vezes com mulheres bêbedas que gritam quando passam pelo atleta para o assustar – e assustam.

Kms 9-10: No Panorama e no Faroleiro, comem-se lagostas e discutem-se negócios e amantes. Entre restaurantes, há zonas sem luz e o corredor sente agora a força máxima do vento norte, um zumbido tão forte que ofusca até os pensamentos. Abre-se a boca e o cuspo voa. Corre-se quase sem sair do mesmo sítio. Apanha-se “chuva do mar”. O estado de espírito é de arrependimento, apreensão (os postes vibram)… mas, ao mesmo tempo, muita vontade de continuar!

Km 11: Aqui entra a areia em acção: “… e o pobre concorrente português é agora picado por milhares de grãozinhos de areia!”, diria Clímaco, sempre jovial. Os que não entram corpo adentro colam-se à superfície suada, mas não cegam, porque batem de ladinho, por isso pode-se continuar a cambaleante corrida. Há também dunas que surgem sem aviso na via, quase toda escura, empapando os passos. Os carros que passam de frente encandeiam; os que vêm de trás são uma bênção que permite avistar os cem metros seguintes. Há um passadiço de madeira, completamente escuro, com muita areia acumulada; nas noites mais críticas, o corrimão que nos guia dá-nos pelo joelho.

Kms 12-17: Uma parede de 300m e inclinação de 8% é uma violação dos direitos humanos, mas acaba por não afligir tanto porque nos afasta da areia e escuridão e a coisa faz-se. Seguem-se outras subidas duras, mas depois entra-se numa fase “normal”, com o retorno a meio.

Km 18: A inclinação dos 8%, agora a descer, é um descanso para as pernas que precede o passadiço de madeira, onde levamos com mais uma tareia de areia do outro lado do corpo, para o croquete ficar uniforme.

Kms 19-23: Aqui acontece magia. Apesar do cansaço, levamos com a nortada pelas costas – e que prazer! É um empurrão quase silencioso em que basta levantar os pés do chão para galgarmos uma grande distância, com os riscos no meio da ciclovia a desaparecerem cada vez mais depressa. A planar, sem obstáculos pela frente, liberta-se a mente e entra-se em modo de meditação activa. Há, finalmente, paz para observar as estrelas e a lua, límpidas como num planetário.

Km 24: Convém não se ter entusiasmado demasiado com a velocidade, porque o vento não dura sempre e há que estar em condições de subir, com dignidade, a subida do Forte dos Oitavos até à Casa da Guia, a última afronta ao corpo do atleta despedaçado. Não mata como a curta subida de 8%, mas mói, por se prolongar por quase 1 Km.

Km 25: Na recta da consagração, passamos pelo bar improvisado em que se transforma a gasolineira Repsol à noite. Quem estiver em forma e chegar antes das 0:00, poderá observar os últimos pedidos antes do fecho do estabelecimento. Alguns clientes, sentados a conviver na relva junto à ciclovia, aplaudem e incentivam, mas a maioria ignora ou desconfia das motivações de uma pessoa com tão mau aspecto.

 

Recomendações

  • botija de água (pelo menos 1 litro)
  • roupa reflectora
  • lanterna (não tenho, mas é muito útil)
  • banho no final para retirar a areia do corpo 🙂

 

P.S. Ontem à noite fiz este percurso pela terceira vez e, como das outras, passei por todos as barreiras, mas desta menos com menos efeito do vento. Quem quiser juntar-se a mim, ou fizer sozinho, que deixe uma mensagem nos comentários. Aconselho vivamente esta aventura que tem de tudo um pouco… até roça o trail.

Em baixo, um vídeo com o trajecto. (A bandeirinha do ritmo a 3:07 é uma falha no GPS. Os 100 metros que faltam é a comissão que o Strava me cobra por não ser membro premium.)

 

(Para quem usa o Strava, basta ir a https://www.relive.cc/ e subscrever o serviço para os filmezinhos serem enviados para o e-mail uma hora depois de descarregar o treino no Strava. É de borla e é engraçado!)

 

4 Comments

  • João Lima says:

    Curiosa descrição do percurso!

    O problema é quando está um daqueles dias de vendaval na zona.

    Um abraço e muita força para a estreia na distância mítica!

  • Baptista says:

    É verdade, nos dias de vento forte torna-se um desafio correr ali. É quase cómico!

    Obrigado, amigo, boa preparação para ti também!

  • N. says:

    Imaginar esta corrida como se fosse uma prova dos JSF é hilariante, mesmo!
    Curiosamente este ano nas férias num sítio onde apenas havia TDT as horas de almoço eram passadas a ver… os Jogos Sem Fronteiras na RTP Memória e a recordar os feitos da sempre fantástica equipa da Amadora! 🙂
    Abraço!

  • Baptista says:

    Engraçado, que também passei uns almoços a acompanhar os JSF (para tentar prender a criança (em vão) à cadeira) e talvez por isso me tivesse ocorrido o título. Grande Amadora, sempre no coração! 🙂

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